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A PATA DA
GAZELA
JOS DE
ALENCAR
2
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A PATA DA
GAZELA
I
Estava parada na Rua da Quitanda, prximo  da
Assemblia, uma linda vitria, puxada por soberbos cavalos
do Cabo.
Dentro do carro havia duas moas; uma delas, alta e
esbelta, tinha uma presena encantadora; a outra, de
pequena estatura, muito delicada de talhe, era talvez mais
linda que sua companheira.
Estavam ambas elegantemente vestidas, e conversavam a
respeito das compras que j tinham realizado ou das que
ainda pretendiam fazer.
-- Daqui aonde vamos? perguntou a mais baixa, vestida de
roxo claro.
-- Ao escritrio de papai: talvez ele queira vir conosco. Na
volta passaremos pela Rua do Ouvidor, respondeu a mais
esbelta, cujo talhe era desenhado por um roupo cinzento.
O vestido roxo debruou-se de modo a olhar para fora, no
sentido contrrio quele em que seguia o carro, enquanto o
roupo, recostando-se nas almofadas, consultava uma
carteirinha de lembranas, onde naturalmente escrevera a
nota de suas encomendas.
-- O lacaio ficou-se de uma vez! disse o vestido roxo com
um movimento de impacincia.
--  verdade! respondeu distraidamente a companheira.
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Estas palavras confirmavam o que alis indicava o simples
aspecto da carruagem: as senhoras estavam  espera do
lacaio, mandado a algum ponto prximo. A impacincia da
moa de vestido roxo era partilhada pelos fogosos cavalos,
que dificilmente conseguia sofrear um cocheiro agaloado.
Depois de alguns momentos de espera, sobressaltou-se o
roupo cinzento, e conchegando-se mais s almofadas,
como para ocultar-se no fundo da carruagem, murmurou:
-- Laura!... Laura!...
E como sua amiga no a ouvisse, puxou-lhe pela manga.
-- O que , Amlia?
-- No vs? Aquele moo que est ali defronte nos olhando.
-- Que. tem isto? disse Laura sorrindo.
-- No gosto! replicou Amlia com um movimento de
contrariedade. H quanto tempo est ali e sem tirar os olhos
de mim?
-- Volta-lhe as costas!
-- Vamos para diante.
-- Como quiseres.
Avisado o cocheiro, avanou alguns passos, de modo a tirar
ao curioso a vista do interior do carro; mas o mancebo no
desanimou por isso, e passando de uma a outra porta,
tomou posio conveniente para contemplar a moa com
admirao franca e apaixonada.
Simples no traje, e pouco favorecido a respeito de beleza;
os dotes naturais que excitavam nesse moo alguma
ateno eram uma vasta fronte meditativa e os grandes
olhos pardos, cheios do brilho profundo e fosforescente que
naquele momento derramavam pelo semblante de Amlia.
Havia minutos que, percorrendo a Rua da Quitanda em
sentido oposto  direo do carro, avistara a moa
recostada nas almofadas, e sentira a seu aspecto viva
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impresso. Sem disfarce ou acanhamento, recostando-se 
ombreira de uma porta de escritrio, esqueceu-se naquela
ardente contemplao.
O corao  um solo. Vale onde brotam as paixes, como os
outros vales da natureza inanimada, ele tem suas estaes,
suas quadras de aridez ou de seiva, de esterilidade ou de
abundncia.
Depois das grandes borrascas e chuvas, os calores do sol
produzem na terra uma fermentao, que forma o hmus; a
semente, caindo a, brota com rapidez. Depois das grandes
dores e das lgrimas torrenciais, forma-se tambm no
corao do homem um hmus poderoso, uma exuberncia
de sentimento que precisa de expandir-se. Ento um olhar,
um sorriso, que a penetre,  semente de paixo, e pulula
com vigor extremo.
O moo parecia estar nessas condies: ele trajava luto
pesado, no somente nas roupas negras, como na cor
macilenta das faces nuas, e na mgoa que lhe escurecia a
fronte.
Notando Amlia a insistncia do mancebo, ficou vivamente
contrariada. Aquele olhar profundo, que parecia despedir os
fogos surdos de uma labareda oculta, incutia nela um
desassossego ntimo. Agitava-se impaciente, como uma
criatura no meio de um sono inquieto ou mesmo de um
ligeiro pesadelo.
At que abriu o chapeuzinho-de-sol, para interceptar a
contemplao apaixonada de que era objeto. Nesta ocasio,
Laura, que freqentemente se debruava para ver quando
vinha o lacaio, retraiu o corpo com vivacidade:
-- Enfim; a vem!
-- Felizmente! disse Amlia.
O lacaio aproximava-se a passos medidos; trazia na mo
um embrulho de papel azul, que o atrito dos dedos e a
oscilao dos objetos envoltos desfizera, obrigando o
portador a apert-lo de vez em quando.
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Julgando ao cabo de alguns instantes que o lacaio j tocava
o estribo da carruagem, Amlia, tomando um tom
imperativo, disse para o cocheiro:
-- Vamos! vamos!
Ao aceno que lhe fez o cocheiro, o lacaio correu, chegando a
tempo de apanhar o carro, que partia ao trote largo da
fogosa parelha. Deitar o embrulho na caixa da vitria,
rodear em dois saltos e galgar o estribo da almofada, foi
para o criado, habituado a essa manobra, negcio de um
instante. No percebera ele, porm, que abrindo-se o papel
com a corrida, um dos objetos nele contidos escorregara e,
justamente na ocasio de deitar o embrulho na caixa do
carro, cara na calada.
Laura, que se inclinara com vivo interesse para tomar o
embrulho das mos do lacaio, tivera um pressentimento do
acidente, ao ver o papel desenrolado. Fechando-o
rapidamente e escondendo-o por baixo do assento da
vitria, ela debruou-se ainda uma vez para verificar se com
efeito alguma coisa havia cado. Ao mesmo tempo
acompanhava o movimento com estas palavras de
contrariedade:
-- Como ele manda isto! Por mais que se lhe recomende!
Laura nada viu, porque j a vitria rodava ligeiramente
sobre os paraleleppedos.
Nesse momento, porm, dobrando a Rua da Assemblia, se
aproximara um moo elegante no s no traje do melhor
gosto, como na graa de sua pessoa: era sem dvida um
dos prncipes da moda, um dos lees da Rua do Ouvidor;
mas desse podemos assegurar pelo seu parecer distinto que
no tinha usurpado o ttulo.
O mancebo viu casualmente o lacaio quando passara por ele
correndo, e percebeu que um objeto cara do embrulho.
Naturalmente no se dignaria abaixar para apanh-lo, nem
mesmo deitar-lhe um olhar, se no visse aparecer ao lado
da vitria o rosto de uma senhora, que o aspecto da
carruagem indicava pertencer  melhor sociedade.
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Ento apressou-se, para ter ocasio de fazer uma fineza, e
pretexto de conhecer a senhora, que lhe parecera bonita. Os
lees so apaixonadssimos de tais encontros; acham-lhes
um sainete que destri a monotonia das relaes habituais.
Quando o moo ergueu-se com o objeto na mo, j o carro
dobrava a Rua Sete de Setembro. Ficou ele um momento
indeciso, olhando em torno, como se esperasse alguma
informao a respeito da pessoa a quem pertencia o carro.
Sem dvida a senhora era conhecida em alguma loja de
fazendas; talvez tivesse a feito compras.
No obtendo, porm, informaes, nem colhendo resultado
da pergunta que fizera a um caixeiro prximo, resolveu-se a
meter o objeto no bolso e seguir seu caminho.
II
Horcio de Almeida, o nosso leo, voltou a casa  hora do
costume, quatro da tarde.
Os sucessivos encontros da Rua do Ouvidor; a conversa no
Bernardo; a visita indispensvel ao alfaiate; as anedotas do
Alczar na noite antecedente; a crnica anacrentica do Rio
de Janeiro, chistosamente comentada; algumas rajadas de
maledicncia, que  a pimenta social; todas essas
ocupaes importantes, que absorvem a vida do leo,
distraram Horcio a ponto de se esquecer ele do objeto
guardado no bolso do palet.
Como admitir que um prncipe da moda no aproveitasse a
aventura do carro, para sobre ela bordar um romance de
rua, com que excitasse a curiosidade dos amigos?
Realmente  admirvel; e seria incompreensvel se no
fosse a circunstncia de ter poucos passos adiante
encontrado uma das mais ricas herdeiras do Brasil, a quem
o nosso leo arrastava... ia dizer a asa, mas isso seria
anacronismo; dizia-se no tempo em que os lees se
chamavam galos; hoje deve dizer-se arrastar a juba;  mais
bonito e indica mais submisso. Arrastar a asa  enfunar-se;
arrastar a juba  prostrar-se.
Foi s quando, encostado em sua otomana, descansava para
o jantar, que Horcio, procurando a carteira de charutos no
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bolso do fraque, lembrou-se do objeto. Teve ento
curiosidade de examin-lo: sabia o que era; na ocasio de
apanh-lo reconhecera o p de uma botina de senhora; mas
no fizera grande reparo.
Agora, porm, que de novo o tinha diante dos olhos, a ss
em seu aposento, e despreocupado da idia de o restituir,
Horcio achou o objeto digno de sria ateno; e
aproximando-se da janela, comeou um exame
consciencioso.
Era uma botina, j o sabemos; mas que botina! Um primor
de pelica e seda, a concha mimosa de uma prola, a faceira
irm do lindo chapim de ouro da borralheira; em uma
palavra a botina desabrochada em flor, sob a inspirao de
algum artista ignoto, de algum poeta de ceir e torqus.
No era, porm, a perfeio da obra, nem mesmo a
excessiva delicadeza da forma, o que seduzia o nosso leo;
eram sobretudo os debuxos suaves, as ondulaes
voluptuosas que tinham deixado na pelica os contornos do
pezinho desconhecido. A botina fora servida, e muitas
vezes; embora estivesse ainda bem conservada, o desmaio
de sua primitiva cor bronzeada e o esfrolamento da sola
indicavam bastante uso.
Se fosse um calado em folha, sado da loja, no teria
grande valor aos olhos do nosso leo, habituado no s a
ver, como a calar, as obras primas de Millis e Camps.
Talvez reparando muito naquela pea que tinha nas mos,
notasse maior elegncia no corte, e um apuro escrupuloso
na execuo; porm mais natural seria escapar-lhe essa
mnima circunstncia.
Mas a botina achada j no era um artigo de loja, e sim o
traste mimoso de alguma beleza, o gentil companheiro de
uma moa formosa, de quem ainda guardava a impresso e
o perfume. O rosto estufava mostrando o firme relevo do
pezinho arqueado. Na sola se desenhava a curva graciosa
da planta sutil, que s nas extremidades beijava o cho,
como o silfo que frisa a superfcie do lago com a ponta das
asas.
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H um aroma, que s tem uma flor na terra, o aroma da
mulher bonita: fragrncia voluptuosa que se exala ao
mesmo tempo do corpo e da alma; perfume inebriante que
penetra no corao como o amor volatilizado. A botina
estava impregnada desse aroma delicioso; o delicado tubo
de seda, que se elevava como a corola de um lrio,
derramava, como a flor, ondas suaves.
O mancebo colocara longe de si o charuto para no
desvanecer com o fumo os bafejos daquele odor suave. No
havia a o menor laivo de essncia artificial preparada pela
arte do perfumismo; era a pura exalao de uma ctis
acetinada, esse hlito de sade que perspira atravs da fina
e macia tez, e como atravs das ptalas de uma rosa.
De repente uma idia perpassou no esprito do moo, que o
fez estremecer. Essa botina grcil, em que mal caberia sua
mo aristocrtica, essa botina mais mimosa do que sua luva
de pelica, no podia ter um nmero maior do que o de seus
anos, vinte e nove!
-- Ser de uma menina! murmurou ele um tanto
desconsolado.
Examinou novamente a obra-prima, voltou-a de todos os
lados, apalpou docemente o salto e o bico, dobrou a orla da
haste, sondou o interior da concha, que servira de regao ao
feiticeiro pezinho. Depois de alguns instantes deste exame
profundo e minucioso, um sorriso expandiu o semblante de
Horcio
--  de moa,  de mulher! murmurou ele. Aqui esto os
sinais evidentes; no podem falhar. A fbula de dipo  uma
verdade eterna. no enigma da esfinge est realmente o mito
da vida. O homem  o animal que de manh anda sobre
quatro ps; ao meio-dia sobre dois;  tarde sobre trs. Na
infncia, a criatura, como a planta, conserva-se rasteira,
brota, pulula, mas conchega-se mais ao solo de que recebe
toda a nutrio; as mos servem-lhe de ps. Depois da
juventude, na poca da expanso, a criatura se lana para o
espao, exalta-se;  a rvore que hasteia e procura as
nuvens; a planta pede ao cu os orvalhos e a luz do sol; a
alma pede a crena, a f, a esperana, de que se geram as
flores, que ns chamamos paixes. Na velhice, o homem se
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inclina de novo para a terra, como o tronco carcomido;  o
p, que, depois de revoar no espao, deposita-se outra vez
no cho. Ento o velho precisa do bordo; uma das mos
torna-se p e cala esse coturno da mais triste das tragdias
humanas, a decrepitude.
Horcio observou de novo atentamente o objeto que tinha
entre as mos.
-- A menina de quinze anos j no  a cora de quatro
patas; no est mais na alvorada da vida, na puercia;
tambm ainda no chegou ao meio-dia do qual aproximase.
Contudo, seu andar conserva ainda aquela atrao para
a terra;  pesado; calca o cho com fora; tem o quer que
seja de sacudido, que revela os impulsos da alma para
desprender-se do p e elevar-se; assemelha a singradura do
batel, que ora se levanta, ora se submerge. Se esta botina
fosse de uma menina, aqui estariam impressos esses
caracteres de sua idade. A sola, em vez de levemente
triturada nas extremidades, estaria estragada; o salto
cambado.  uma observao que todo sapateiro
confirmaria: o menino gasta o calado pela sola, o homem
pelo couro; a razo, o sapateiro a ignora, mas o filsofo a
conhece: o menino  o inseto que rasteja, a larva; o homem
 o inseto que voa, o besouro; aquele anda com o ventre,
este com a asa.
Horcio sorriu.
-- Esta botina  de moa; e moa em todo o vio da
juventude: a sola apenas roada junto  ponta, o salto
quase intato, no esto descrevendo com a maior
eloqncia a sutileza do passo ligeiro? Eu sinto, posso dizer
eu vejo, esse andar gentil, que manifesta a deusa, como
disse o poeta; a deusa, a Vnus deste olimpo em que
vivemos, a mulher. S quando toda seiva se precipita para o
corao, quando germinam os botes que mais tarde
abriro em flor, s nesse momento de assuno  que a
mulher tem este andar sublime e augusto.  o andar do
passarinho que, roando a relva, sente o impulso das asas;
 o andar do astro nascente, caminhando para a ascenso;
 o andar do anjo que, mesmo tocando a terra, parece
prestes a fugir ao cu; e , finalmente, a elao d'alma que
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aspira de Deus os eflvios do amor, do amor, nico
ambiente do corao!
Nisto o moo descobriu na fivela do lao da botina alguma
coisa que lhe excitou vivo reparo; chegando-se  luz, viu as
voltas de um fio, que prendeu entre as brancas unhas
afiladas, verdadeiras garras de leo da moda. Com alguma
pacincia retirou um longo cabelo castanho e muito crespo.
-- Outra prova de que alis no carecia! Este cabelo  de
mulher; no h menina que possa ter. Quatro palmos, alm
do que se partiu naturalmente! Bem se v que  uma
palmeira frondosa, e no um arbusto! Tem o cabelo
castanho e crespo, duas coisas lindas sem dvida, embora
minha paixo seja a trana basta e lisa, negra como uma
asa de corvo. Esse negrume d  mulher o quer que seja de
satnico: lembra que ela tambm gerou se da terra; no 
anjo somente; no  somente filha do cu. Eu no posso
suportar a mulher-serafim, que parece desdenhar do mundo
onde vive, e do p de que  feita.
Horcio voltou a botina.
-- Mas seja embora castanha, ou mesmo loura, que  uma
cor inspida de cabelo! Que me importa isto? Tenho alguma
coisa com seu cabelo? O que amo nela  o p: este p silfo,
este p anjo, que me fascina, que me arrebata, que me
enlouquece!...
Horcio, que at ento se contentava com olhar e apalpar a
botina, inclinou-se e beijou-a no rosto; mas tmida e
respeitosamente. No era essa a imagem do p sedutor,
que ele adorava como um dolo?
-- Mas onde encontr-lo? como reconhec-lo? exclamou
dolorosamente Horcio, sentindo a realidade da situao.
Nenhum indcio que lhe revelasse o nome da mulher a quem
pertencia essa gentil botina, ou lhe indicasse ao menos os
traos de sua passagem A lembrana vaga de libr de um
lacaio era o nico vestgio que restava, mas com este
dificilmente poderia descobrir o objeto de sua adorao H
tantos lacaios no Rio de Janeiro; e tantas librs que se
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confundem! Talvez nunca mais encontrasse aquele que
procurava; e encontrando, nem o reconhecesse
-- Desgraado! dizia o leo. Quase nem o olhaste; mas
podias tu adivinhar, Horcio, que tesouro deixara cair
aquele bruto?
O mancebo inclinara ao peito a bela cabea esmorecida; a
ventura lhe tinha sorrido de longe, para escarnecer dele, o
leo mais querido das belezas fluminenses, o tila do
Cassino, o Genserico da Rua do Ouvidor
De repente ergueu-se dum mpeto:
-- Hei de possu-lo!... exclamou ele com o tom com que
Alexandre se prometeu o imprio da sia.
III
Ningum imagina que belos talentos sorve essa voragem do
mundo que chamam a vida elegante.
So como as rvores luxuriantes que se vestem de linda
folhagem, e consomem toda a seiva nessa gala estril e
efmera. Nunca elas do fruto, nem sequer flor.
Horcio de Almeida era uma de tantas inteligncias
desperdiadas no incessante bulcio da moda.
Muitos poetas, dos que tm seu nome estampado em rosto
de livro no empregaram na fbrica de seus versos o
aticismo, a inspirao e a graa com que o nosso leo
torneava no baile um galanteio, ou aguava um epigrama.
Pintores so festejados, que no sabem o segredo dos
toques delicados, e do supremo gosto, que Horcio imprimia
no lao de sua gravata, em suas maneiras distintas, nos
mnimos acidentes de seu traje apurado.
E a fisiologia?
Poucos homens conheciam como Horcio o corao da
mulher; porque bem raros o teriam estudado com tanta
assiduidade. O mais sbio professor ficaria estupefato da
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lucidez admirvel, com que o leo costumava ler nesse caos
da paixo, que a anatomia chamou corao de mulher.
A razo  simples. O professor estudou no gabinete;
consultou as obras dos mestres, coligiu observaes alheias,
e arranjou um sistema sobre o que no sofre regras: sobre
a paixo cuja essncia  o imprevisto, o anmalo, o
indefinvel.
Ao contrrio, Horcio tinha estudado na realidade da vida;
devassara os refolhos do plipo, lhe sentira as pulsaes, e
fizera experincias in anima Vili. No fatigou sua memria
com a intil bagagem dos termos tcnicos e das noes
cientficas: lia os hierglifos do amor com a linguagem
garrida do homem da moda.
A perspiccia do olhar, a profundeza da investigao e a
certeza de observao, com que o nosso leo sondava o
abismo do corao e rastreava no semblante da mulher os
vagos sintomas de uma inclinao nascente, ou de uma
afeio expirante, s os grandes mdicos possuem to altos
dotes.
Assim gastava Almeida a mocidade, desfolhando seu belo
talento pelas salas e pontos de reunio. As riquezas de sua
elevada inteligncia, as ia ele esparzindo nas elegantes
futilidades de um cio to laborioso, como  o far niente de
um leo.
Consumir o tempo no se apercebendo de sua passagem;
livrar-se do fardo pesado das horas sem ocupao; h nada
mais difcil para o homem que ignora o trabalho?
Se o Almeida poupasse desse tempo to esperdiado alguns
momentos no dia para dedic-los a um fim srio e til, 
cincia,  literatura,  arte, que belos triunfos no obteria
sua rica imaginao servida por um esprito cintilante?
Mas o nosso leo tinha a este respeito idias excntricas.
-- A poltica, dizia ele, quando no d em especulao,
passa a mistificao. A cincia, se escapa de mania, tornase
uma gleba em que o sbio trabalha para o nscio.
Literatura e arte so plgios; quem pode fazer poesia e
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romance ao vivo, no se d ao trabalho de reproduzi-los;
nem contempla esttuas, quem lhes admira os modelos
animados e palpitantes.
Com tais paradoxos, Horcio no achava emprego mais
digno para a inteligncia, do que a difcil cincia de consumir
gradualmente a vida e atravessar sem fadiga e sem reflexo
por este vale de lgrimas, em que todos peregrinamos
A mulher era para ele a obra suprema, o verbo da criao.
Toda a religio como toda a felicidade, toda a cincia como
toda a poesia, Deus a tinha encarnado nesse misto
incompreensvel do sublime e do torpe, do celeste e do
satnico: amlgama de luz e cinzas, de lodo e nctar.
-- Amar  adorar a Deus na sua ara mais santa, a mulher.
Amar  estudar a lei da criao em seu mais profundo
mistrio, a mulher. Amar  admirar o belo em sua mais
esplndida revelao;  fazer poemas e esttuas como
nunca as realizou o gnio humano.
Mas o que sentia Horcio era apenas o culto da forma, o
fanatismo do prazer.
O amor, o verdadeiro amor consiste na possesso mtua de
duas almas; e essa, pode o homem iludir-se alguma vez,
mas quando se realiza,  indissolvel. Nada separa duas
almas gmeas que prende o vnculo de sua origem divina.
O mancebo admirava na mulher a formosura unicamente:
apenas artista, ele procurava um tipo. Durante dez anos
atravessara os sales, como uma galeria de esttuas
animadas e vivos painis, parando um instante em face
dessas obras-primas da natureza.
Vieram uns aps outros todos os tipos: a beleza ardente das
regies tpidas, ou a suave gentileza da rosa dos Alpes; o
moreno voluptuoso ou a alvura do jaspe; a fronte soberana
e altiva ou o gesto gracioso e meigo; o talhe opulento e
garboso ou as formas esbeltas e flexveis.
Seu gosto foi-se apurando; e ao cabo de algum tempo
tornou-se difcil. A beleza comum j no o satisfazia; era
15
preciso a obra-prima para excitar-lhe a ateno e comovlo.
Mas os sentidos se gastam; os mesmos primores da
formosura caram na monotonia. J o leo no sentia pela
mais bela mulher aqueles entusiasmos ardentes da primeira
mocidade. Seu olhar era frio e severo como o de um crtico.
Ento, comeou o moo a amar, ou antes a admirar, a
mulher em detalhe. Sua alma embotada carecia de um
sainete. Foi a princpio uma boca bonita, cofre de prolas,
de sorrisos, de beijos e harmonias. Veio depois uma trana
densa e negra, como a asa da procela que se inflama. Uma
cintura de slfide, um colo de cisne, um requebro sedutor,
um sinal da face, uma graa especial, um no sei que: tudo
recebeu culto do nosso leo.
Como um conviva, a quem as iguarias do banquete j no
excitam, sua alma babujava na sala essas gulosinas. Mas
afinal embotou-se; e o prazer no foi para ela mais do que a
vulgar satisfao de um hbito.
O moo cortejava as senhoras como uma ocupao
indispensvel  sua vida, como o desempenho da tarefa
diria; mas sem a menor comoo.
Amar era um entretenimento do esprito, como passear a
cavalo, freqentar o teatro, jogar uma partida de bilhar.
O amor j no tinha novidades nem segredos para ele, que
o gozara em todas as formas; na comdia e no drama; no
idlio e na ode. Como Richelieu, diziam at que ele j o havia
calcado com o taco da bota.
Nestas circunstncias bem se compreende a impresso
profunda que nele produzia a mimosa botina, achada
naquela manh.
Almeida tinha admirado a mulher em todos os tipos e em
todos os seus encantos; mas nunca a tinha amado sob a
forma sedutora de um pezinho faceiro. Era realmente para
surpreender. Como lhe passara despercebido esse condo
mgico da mulher, a ele que julgava ter esgotado todas as
emoes do amor?
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Sucedeu, como era natural, que uma vez percutidas as
energias dessa alma enervada por longa apatia, a reao foi
violenta. Inflamou-se a imaginao e especialmente com o
toque do mistrio que trazia a aventura. Se o dono da
botina, o sonhado pezinho, se mostrasse desde logo, no
produziria o mesmo efeito; no teria o sabor do
desconhecido, que  irmo do proibido.
Imagine, quem conhecer o corao humano, a veemncia
dessa paixo, excitada pelo tdio do passado e alimentada
por uma imaginao ociosa. De que loucuras no  capaz o
homem que se torna ludbrio de sua fantasia?
As extravagncias de Horcio, contemplando a botina,
verdadeiras infantilidades de homem feito, bem revelavam a
agitao dessa existncia, embotada para o verdadeiro
amor e gasta pelo prazer.
No se riam, homens srios e graves, no zombem de
semelhantes extravagncias; so elas o delrio da febre do
materialismo que ataca o sculo.
Essa paixo de Horcio, o que  seno aberrao da alma,
consagrada ao culto da matria? A voracidade insacivel do
desejo vai criando dessas monstruosidades
incompreensveis.
Sucede a esta embriaguez do amor o mesmo que 
embriaguez do lcool. A princpio basta-lhe o vinho fino e
aristocrtico; depois carece da aguardente; e por fim j no
a satisfaz a infuso do gengibre em rum, isto , a larva de
um vulco preparada  guisa de grogue.
IV
Ao mesmo tempo que o nosso leo, entrava Leopoldo de
Castro na modesta habitao que ento ocupava na Glria.
Quando lhe fugira a celeste viso, o mancebo foi seguindo
com o passo e com os olhos o carro que levava sua alma
presa quele rosto encantador. O passo era rpido e o olhar
ardente; um ansiava por chegar; o outro quisera atrair pela
fora da paixo, pelo m das centelhas magnticas que
desferia a alma.
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Fosse iluso dos sentidos perturbados pela comoo interior,
ou breve e confusa percepo da realidade, julgou o moo
ver, no momento do dobrar o carro pela Rua Sete de
Setembro, um talhe esbelto inclinar-se para a frente, e
aparecer de relance um rosto alvo, donde escapou-se vivo e
rpido olhar.
Leopoldo no tinha o intento de alcanar, nem mesmo
seguir, o carro que fugia com velocidade; mas embalava-o a
esperana de que um obstculo qualquer, impedindo por
instantes o livre transito, lhe permitisse outra vez
contemplar a moa. Quando, porm, isso no sucedesse,
consolava-o a idia de conhecer a direo que tomaria a
linda vitria.
-- Se eu soubesse ao menos para que lado mora ela!... Esse
ponto seria o meu horizonte, o meu cu. Me voltaria para ali
quando adorasse a Deus e quando conversasse com ela.
Amaria as estrelas, as nuvens e at as borrascas dessa
banda do firmamento; amaria as ruas, as caladas e at a
poeira desse arrabalde da cidade.
O mancebo vagou assim durante duas horas, percorrendo as
ruas sem destino. No era tanto a esperana de ver a moa,
ou somente o carro, como a necessidade de ocupar seu
esprito, o que o impelia nessa perseguio de uma sombra.
-- Eu tornarei a v-la, pensava ele consigo; e ela me h de
amar, tenho convico. O amor  um magnetismo; eu
acredito que o magnetismo se resume nele; que a lei da
atrao no  seno a lei da simpatia; os plos so a cabea
e o corao, na terra como no homem. Se ela for a mesma
que eu vi com os olhos de minha alma, a mesma que se
revelou  minha paixo, aquela a que devo unir-me
eternamente para formar um ser mais perfeito, eu
caminharei para ela, como ela para mim, impelidos por uma
fora misteriosa, por mtua aspirao.
Com o animo repousado por essa convico que nele se
derramara, entrou Leopoldo em casa. A o esperava o
isolamento em que se ia escoando sua vida, depois da perda
de uma irm a quem adorava.
18
Nessa irm tinha ele resumido todas as afeies da famlia,
prematuramente arrebatada  sua ternura; o amor filial,
que no tivera tempo de expandir-se, a amizade de um
irmo, seu companheiro de infncia, todos esses
sentimentos cortados em flor, ele os transportara para
aquele ente querido, que era a imagem de sua me.
Essa perda deixara um vcuo imenso no corao de
Leopoldo; a princpio enchera-o a dor, depois a saudade;
agora essa mesma terna saudade sentia-se desamparada na
profunda solido daquele corao ermo. O mancebo carecia
de uma afeio para povoar esse deserto de sua alma, de
uma voz que repercutisse nesse lgubre silncio.  to doce
partilhar sua melancolia, ou seu prazer, com um outro eu,
com um amigo ou uma esposa. So dois ombros para a
cruz, e dois peitos para a alegria; alivia-se o peso, mas
duplica-se o gozo.
Ao cair da tarde, quando o crepsculo j desdobrava sobre a
cidade o vu de gaza pardacenta, Leopoldo, sentado 
janela de peitoril de sua casa, fumava um charuto, com os
olhos engolfados no azul difano do cu, onde cintilava a
primeira estrela. A seus ps desdobrava-se a baa plcida e
serena como um lago, com a sua graciosa cintura de
montanhas, caprichosamente recortadas.
O esprito do moo no se embebia decerto na perspectiva
dessa encantadora natureza, sempre admirada e sempre
nova. Ao contrrio, abandonava-se todo s recordaes de
seu encontro pela manh e aos enlevos que lhe deixara a
contemplao da linda moa. Passava e repassava em sua
memria, como em um cadinho, todas as circunstncias
mnimas deste grande e importante acontecimento, desde o
momento em que assomou a viso at que desapareceu por
ltimo ao dobrar o canto da rua.
Achava nisso o mesmo prazer que um menino guloso
experimenta em chupar novamente os favos j saboreados:
l ficou um raio de mel, que o lbio vido colhe. Para
Leopoldo esses raios de mel eram os olhares, os
movimentos, os sorrisos da moa, avivados pela maior
contenso do esprito.
19
Houve uma ocasio em que o mancebo quis representar em
sua lembrana a imagem da moa; naturalmente comeou
interrogando sua memria a respeito dos traos principais.
Como era ela? Alta ou baixa, torneada ou esbelta, loura ou
morena? Que cor tinham seus olhos?
A nenhuma dessas interrogaes satisfez a memria;
porque no recebera a impresso particular de cada um dos
traos da moa. No obstante, a apario encantadora
ressurgia dentro de sua alma; ele a revia tal como se
desenhara a seus olhos algumas horas antes. Era a imagem
difana de um sonho que tomara vulto gracioso de mulher.
-- No me lembro de seus traos, no posso lembrar-me!...
murmurava no ntimo. Eu a contemplei, como se contempla
uma luz brilhante: v-se a chama, o esplendor, e nem se
repara no espectro que a flama envolve como uma
roupagem. Ela  minha luz; no sei a cor e a forma que
tem, mas sei que cintila, que me deslumbra; que inunda
meu ser de uma aurora celeste. No poderia descrev-la,
como um poeta... Mas que importa? Pois que eu a sinto em
mim; pois que eu a possuo em meu corao?
As plpebras do mancebo cerraram-se coando apenas uma
rstia de olhar, que se embebia nas alvas espirais da
fumaa do charuto. Percebia-se que naquela nvoa se
debuxava  sua imaginao a sedutora imagem, diante da
qual ele caa em xtases de uma doura inefvel.
-- Quem sabe? Talvez no seja ela o que nos bailes se
chama uma moa bonita; talvez no tenha as feies lindas
e o talhe elegante. Mas eu a amo!... O amor  sol do
corao; imprime-lhe o brilho e o matiz! Vnus, a deusa da
formosura, surgindo da espuma das ondas, no  outra
coisa seno o mito da mulher amada, surgindo dentre as
puras iluses do corao! O que eu admiro nela, o que me
enleva,  sua beleza celeste;  o anjo que transparece
atravs do invlucro terrestre;  a alma pura e imaculada
que se derrama de seus lbios em sorrisos, e a envolve
como a cintilao de uma estrela.
Leopoldo j no estava s na existncia; tinha para
acompanh-lo na esperana essa doce apario, como para
partilhar a saudade tinha a memria querida de sua irm. O
20
corao aproximou as duas imagens; ligou-as por algum
vnculo misterioso; e criou assim uma famlia ideal, em cujo
seio viveu para o futuro, como para o passado.
Nas horas do trabalho, o moo absorvia-se completamente
nas ocupaes habituais e cerrava sua alma para no deixar
que as misrias do mundo a penetrando profanassem o
templo de sua adorao, o templo da esperana e da
saudade. Fora dessas longas horas, encerrava-se naquele
asilo e a vivia.
Alguns dias depois do encontro da Rua da Quitanda, o
Castro percorrendo distraidamente os jornais da manh, deu
com os olhos sobre os anncios de espetculo, coisa que
desde muito tempo no existia para ele. Representava-se no
Teatro Lrico a Lcia de Lamermoor, o mais sublime poema
de melancolia, que j se escreveu na lngua dos anjos.
O mancebo teve um desejo irresistvel de ir aquela noite ao
espetculo, apesar de conservar ainda o luto pesado. No
compreendia esse capricho de seu corao; atribuiu-o ao
encanto das reminiscncias daquela msica to triste, e
tambm daquele amor to estremecido, que os homens
quiseram romper, mas a fatalidade uniu para sempre no
tmulo. Ele ia saturar-se de tristeza; no havia, portanto,
profanao de uma dor santa.
Eram perto de dez horas; cantava-se o final do segundo ato
da pera, e Leopoldo, sentado em uma cadeira, do lado
direito, estava completamente absorvido no canto magistral
de Lagrange e Mirate. Um momento, porm, ergueu os
olhos, e volvendo-os lentamente, fitou-os em um camarote
de segunda ordem. Estremeceu; o olhar morno e bao que
se escapava de sua pupila iluminou-se de fogos sombrios e
ardentes.
Vira a mulher amada.
Amlia estava nessa noite em uma de suas horas de
inspirao, a mulher bela tem, como o homem de
inteligncia, em certos momentos influies enrgicas de
poesia; nessas ocasies ambos irradiam- a mulher fica
esplndida, o homem sublime.
21
O talhe esbelto da moa desenhava-se atravs da nvea
transparncia de um lindo vestido de tarlatana com laivos
escarlates. Coroava-lhe a fronte o diadema de suas belas
tranas, donde resvalavam dois cachos soberbos, que
brincavam sobre o colo. Os cabeleireiros chamam esses
cachos de arrependimentos, repentirs. Por que motivo? A
alma que se arrepende envolve-se daquela forma; o pesar a
confrange. J se v que os cabeleireiros tambm so
poetas.
No foi, porm, o suave perfil da moa, nem os contornos
macios de suas formas gentis, o que arrebatou o esprito
do mancebo. Ele s viu a luz, o brilho d'alma, rorejando do
sorriso. Contemplava a rosa, embebia-se nela, sem contarlhe
as ptalas.
Amlia, que apoiava o lindo brao sobre a almofada de
veludo da balaustrada, prestava ateno  cena, recolhendo
`as vezes a vista para discorr-la vagamente pelos
camarotes fronteiros. Depois que o pano caiu, conservou-se
na mesma posio, conversando com sua me e Laura que
ali estava de visita. Ento voltou rapidamente o rosto, e
deixou cair sobre a platia um olhar sbito e vivo. Foi uma
centelha eltrica, listrando no espao, para logo apagar-se.
Revelou-se no semblante da moa alguma inquietao e
visvel incmodo. Quis disfarar, mas afinal ergueu-se, para
ocultar-se no interior do camarote, por detrs de Laura, a
qual ocupava o outro lugar da frente.
O olhar que deitara  platia encontrou o olhar profundo e
ardente de Leopoldo; e batendo de encontro a esse raio
brilhante, reagiu como estilete para feri-la no corao.
Leopoldo notou vagamente esse movimento; mas como
entre a coluna e o busto de Laura ele via a sombra da
mulher a quem amava, no se interrompeu seu enlevo. De
vez em quando passava-lhe pelo rosto um lampejo sutil, no
qual pressentia o olhar furtivo da moa.
V
Estava a subir o pano.
22
Amlia resolvera ficar onde estava, e no tomar o lugar da
frente, apesar de Laura ter voltado a seu camarote. Mas
essa resoluo, to solidamente calcada em seu corao,
caiu de repente: bastou um olhar. Vira na platia, encostado
 balaustrada da orquestra, um elegante cavalheiro.
Era Horcio.
O sorriso brando que manava dos lbios da moa, como a
onda pura e cristalina de um ribeiro, desapareceu ento sob
outro sorriso mais brilhante, que borbulhava como a frol da
cascata. Era o sorriso da vaidade, como o outro era da
inocncia.
A moa colocou-se na frente, fazendo realar com a graa
de seus movimentos a suprema elegncia do talhe.
Demorou-se mais do que era preciso nesse ato; e sentandose,
houve em seu corpo um impulso quase imperceptvel de
misteriosa expanso. Dir-se-ia que ela se queria debuxar no
quadro iluminado do camarote.
A causa desse elance no o adivinham? O leo tinha
assestado seu binculo de marfim; e a moa com um
irresistvel assomo de faceirice abandonava-se ao olhar do
mancebo.
Durante o ato, Amlia distraiu mais a ateno do semblante
plido de Leopoldo. Enleava os olhos na figura elegante de
Horcio; prendia-se ao fino buo negro que sombreava o
lbio desdenhoso do leo; embebia-se toda na graa de sua
atitude, tentando assim resistir  curiosidade incmoda que
atraa sua ateno para o importuno desconhecido.
No sei por que, Leopoldo, cuja adorao era infatigvel
como a emanao de uma chama perene, sentiu naquela
ocasio a necessidade de dar um repouso  sua
contemplao. Ento como se a luz que o deslumbrava se
fosse tornando mais doce, ele pde ver destacar-se o perfil
gracioso da moa.
-- Tem o cabelo castanho! E pena! Acreditava que a mulher
a quem amasse algum dia. havia de ser loura.  a cor do
reflexo da luz, deve ser a cor desse vu casto que Deus fez
para o pudor. A madeixa foi dada  mulher para recatar a
23
face que enrubesce e o seio que palpita; essa gaza preciosa
deve ser de ouro, ou antes de graa e esplendor.
O moo j no olhava para Amlia; com as plpebras
cerradas estava agora vendo-a na penumbra d'alma.
-- Mas para mim  indiferente que tenha o cabelo castanho;
podia t-lo negro como a treva. Eu a amo, amo sua alma,
sua essncia pura e imaculada! Se Deus me enviou um anjo
para consolar-me em minha aflio, para amparar-me em
meu isolamento, para encher de inefveis jbilos meu ser
saturado de amarguras, posso eu queixar-me porque o
Senhor o vestiu de uma simples tnica de la, e no de um
suntuoso manto de ouro? Eu gostava dos cabelos louros:
pois agora s gosto, s quero, s vejo uns cabelos
castanhos, porque pertencem a ela, se impregnam de seu
perfume e respiram seu hlito!
Terminara o ato. Leopoldo, contemplando a moa, pela
primeira vez lembrou-se de saber quem era, na sociedade,
aquela mulher que lhe pertencia pelo pensamento. Tinha-se
habituado a consider-la como uma coisa sua; parecia-lhe
que ningum mais existia seno eles dois.
Volveu os olhos em busca de algum conhecido, a quem
dirigisse a pergunta. No encontrou; mas ao cabo de alguns
instantes descobriu o leo em seu posto.
-- Ah! l est Horcio que pode me informar, ele conhece
todo o mundo! Justamente agora ps o binoculo para o
camarote.
Como desejava sair, dirigiu-se para aquele lado; mas o leo,
inquieto e preocupado, sara aodadamente, e subia de um
pulo as escadas que o separavam da segunda ordem.
-- Aquela mo  irm do meu adorado pezinho! No tem a
graa dele, sem dvida, nem se compara com aquele mimo
de amor; mas h um certo ar de famlia, um quer que
seja!...
Assim cogitando, Horcio chegara  porta de um camarote,
e pela fresta fitara com disfarce o olhar em Laura, cuja mo,
24
excessivamente pequena e calada por uma luva muito
justa, custava a segurar o binculo de madreprola.
O moo, apenas reconheceu o vestido de seda violeta e a
mozinha que lhe servira de fanal, abaixou o olhar para a
fmbria do vestido a ver se descobria alguma coisa, o peito,
a ponta, a sombra ao menos do pezinho mimoso, do dolo
de sua alma. Mas no foi possvel: o vestido arrastava no
cho; nenhum movimento fazia ondular a seda; e contudo o
mancebo ali ficou imvel, palpitante de emoo, como se
esperasse dos lbios da mulher amada o monosslabo que
devia decidir de seu destino.
A paixo que o mancebo concebera pela dona incgnita da
botina achada, longe de se desvanecer, adquirira uma
veemncia extrema. Horcio, o feliz conquistador, o corao
fogoso e inflamvel, nunca ardera por mulher alguma como
agora ardia por aquele pezinho idolatrado. Era um
verdadeiro amor de leo, terrvel e indmito; era um delrio,
uma raiva.
Seus amigos j no o reconheciam; ele aparecia nos bailes,
nos teatros, nos pontos de reunio, de relance, como um
meteoro, seguindo aps uma idia fixa, ou uma sombra que
fugia diante de seus passos. Conversou-se muito na Rua do
Ouvidor a este respeito. Uns atribuam o fato inaudito 
primeira derrota.
-- Horcio, dizia um de seus amigos, como Napoleo, s
devia ser derrotado uma vez. Mas essa vez foi Waterloo!
-- Que pensa ento?
-- Que o pobre rapaz caminha para o seu rochedo de Santa
Helena. Ou casa a com alguma mulher feia e rica, ou
engorda como um cevado.
Outros lembravam-se de algum desarranjo de fortuna, ou
de alguma veleidade poltica, para explicar o mistrio. Mas
sabia-se que o moo tinha bom e seguro rendimento; e
quanto  poltica, ele a comparava a uma embriaguez
causada pela mais ordinria zurrapa de taberna.
Muitas vezes disse, gracejando, a seus amigos:
25
-- Quando me quiser embriagar, em vez de zurrapa, beberei
champanhe.  mais fino, e tambm mais barato, porque no
deixa uma irritao de estmago, cujo preo  muito melhor
ao de uma caixa de superior clicquot.
A causa real da mudana do leo, ningum pois a sabia nem
a suspeitava.
Depois do achado da botina, sua vida tomara um aspecto
muito diferente. Naquela mesma tarde em que o deixamos
na sua casa de Botafogo, terminado o jantar, mandou
aprontar o tlburi e voltou  cidade. Seu aparecimento
quela hora na Rua do Ouvidor causou estranheza: um leo
de raa, como ele, no passeia ao escurecer, sobretudo no
centro do comrcio, onde s ficam os que trabalham. Seria
misturar-se com os leopardos que aproveitam a ausncia
dos reis da moda, para restolhar alguma caa retardada.
Correu Horcio todas as lojas de calado  procura de
informaes. Para disfarar sua paixo, inventara uma
aposta, como pretexto  sua curiosidade. A um fregus
como ele, no se recusava to pequeno favor, sobretudo
quando levava o sainete de uma anedota de bom-tom. A
todos eles o leo se dirigia mais ou menos nestes termos:
-- Fiz uma aposta com uma senhora: que em todo o Rio de
Janeiro no se encontram trs moas de 18 anos que
calcem n 29. Tenho todo o empenho em ganhar a aposta,
no tanto pelos botes de punho, como porque, se ela
perder, h de ser obrigada a mostrar-me seu p, para eu
verificar se  realmente desse tamanho. Peo-lhe, pois, que
me d uma nota das freguesas a quem costuma vender
calado deste nmero.
Nesta pesquisa gastou Horcio muitos dias, sem colher o
menor resultado. Os poucos pares de calado n 29,
vendidos pelas diferentes lojas, eram destinados a meninas
de doze anos ou a pessoas desconhecidas, cuja idade se
ignorava. Apesar de tudo o leo no desanimava; todas as
manhs, ao acordar, levantava um plano de campanha, que
punha em prtica durante o dia.
Horcio sentira-se de repente tomado de indefinvel ternura
por uma classe, de que antes s se lembrava para
26
amaldio-la: a classe dos sapateiros. Quando via um
sujeito de avental de couro e sovela, o leo sentia-se
atrado para aquele indivduo, que talvez encerrasse o
segredo de sua felicidade, seu futuro, sua existncia. Outras
vezes, porm, tinha de repente uns acessos de cime
selvagem. Lembrando-se que esse operrio talvez j
houvesse tomado medida ao adorado pezinho; que essas
mos calosas teriam tocado a ctis acetinada do anjo de
seus pensamentos, o mancebo sentia em si o furor de Otelo
e procurava um punhal no seio; felizmente s achava a
carteira, a adaga de ouro com que neste sculo se assassina
mais cruelmente.
Depois de consumir as horas em suas indagaes, ia
contemplar a botina, prenda querida de seu amor, e
prosseguia  noite sua porfia incansvel. Corria os
espetculos e bailes, com o olhar rastejando para descobrir
por baixo da orla do vestido, o ignoto deus de suas
adoraes. No danava para observar melhor o arregaado
dos vestidos; de ordinrio andava pelas escadas e portas, a
fim de aproveitar o ensejo da subida e descida; muitas
vezes ia fumar junto ao lugar onde se colocavam os lacaios,
na esperana de conhecer o portador da botina.
Quando as rainhas da moda, as deusas do salo, surpresas
e atnitas, o viam passar sem distingui-las com uma palavra
ou uma fineza, ele, atirando-lhes um olhar de compaixo,
dizia consigo.
-- Coitadas! no sabem que o leo viu a pata da gazela e
fareja-lhe o rastro. Que lhe importam as garras da
pantera?...
Recolhendo, Horcio acendia duas velas transparentes e
colocava-as a um e outro lado da almofada de veludo
escarlate, sobre uma mesinha de charo, embutida de
madreprolas. Tirava de um elegante cofre de platina a
mimosa botina, e com respeitosa delicadeza deitava-a sobre
a almofada, de modo que se visse perfeitamente a graciosa
forma do p que habitara aquele ninho de amor.
Ento acendia o charuto, sentava-se numa cadeira de
espreguiar, defronte, porm distante, para que o fumo no
27
se impregnasse na botina, e ficava em muda e arrebatada
contemplao at alta noite.
Sobre aquela botina via elevar-se como sobre um pedestal,
um vulto de esttua, mas vago, indistinto; e contudo esse
esboo sem formas sedutoras, aquela sombra sem alma e
sem calor, lhe parecia de uma beleza deslumbrante. No era
ela a mulher a que pertencia o mais formoso p do mundo,
o mimo, a obra-prima da natureza?
Recordava-se das mulheres mais bonitas que tinha visto,
das mais lindas senhoras a quem amara com paixo, e sua
memria as trazia todas, uma aps outra, para as colocar ao
lado daquela figura vaga e desvanecida, que planava sobre
a almofada como sobre uma nuvem de ouro. Como elas
fugiam abatidas e humilhadas diante de seu impetuoso
desdm!
-- No so dignas, murmurava ele, nem de beijarem o cho
pisado pela fada desta botina!
Eis qual tinha sido a vida de Horcio at o momento em que
o vamos encontrar no mesmo lugar defronte da porta
entreaberta do camarote. Laura percebeu-o afinal, e sorriulhe
com ternura. A ateno do rei da moda era uma fineza,
um ar de seu real agrado; cumpria-lhe agradecer.
Fitando com mais fora o olhar na pupila da moa como
para travar-lhe da vontade, Horcio abaixou lentamente
esse olhar at a fmbria do vestido de chamalote com uma
insistncia significativa. Laura fez-se escarlate; e a porta do
camarote, rapidamente fechada, a subtraiu s vistas
ardentes do leo.
--  ela! exclamou o corao do mancebo afogado em jbilo.
No h dvida. Para sentir esse pudor exagerado e
incompreensvel  preciso ter ali oculto um p como aquele
que eu sonhei. Um p?... No; um mimo,
uma maravilha, um tesouro, um cu!...  o pudor da violeta,
que se esconde na sombra;  o pudor da prola, oculta na
concha;  o pudor do diamante, sumido no seio da terra; 
o pudor da estrela, imergindo-se no azul.
28
O leo desceu as escadas murmurando:
-- V-lo e morrer.
Pouco depois terminou o espetculo. Amlia com um
ressaibo de melancolia na fronte, embuou-se na pelia e
desceu. Ela perdera de vista Horcio, e s o tornara a ver
parado em frente  porta do camarote de Laura.
Desamparada pelo encanto do gentil mancebo, sofrera todo
o resto do espetculo o desassossego que lhe incutia o olhar
de Leopoldo. Por mais que voltasse o rosto, sentia a
fosforescncia estranha desse olhar repulsivo, que
entretanto a prendia, mau grado seu.
Leopoldo esperava no corredor da entrada a passagem da
moa, quando avistou a seu lado Horcio. O leo sfrego e
impaciente volvia o olhar em vrias direes; naturalmente
procurava algum, e receava que lhe escapasse.
-- Adeus, Horcio.
-- Boa noite, Leopoldo.
Amlia apareceu nesse momento.
-- Conheces aquela moa, Horcio?
-- Qual?... Espera!
Horcio tinha avistado Laura, que descia o lano da escada
oposta, e correra pressuroso, com os olhos fitos na fmbria
de seda. Seu olhar tinha tal fora que parecia um croque a
levantar a orla do vestido. Debalde; nem a sombra do p: o
encorpado estofo arrastava pesadamente pelo cho.
Chegou a moa  porta, onde o carro a esperava. Horcio
teve um vislumbre de esperana, porm nova decepo o
esperava. No viu mais do que uma nuvem de sedas
ondular e sumir-se.
O leo fez um movimento de desespero.
-- Senhor! por que em vez de homem no me fizeste estribo
de um carro! Teria a felicidade de ser pisado por aquele
pezinho.
29
VI
Seriam duas horas da tarde.
Durante a manh tinha cado sobre a cidade uma forte
neblina, que molhara as caladas.
Leopoldo dirigia-se a casa pela Rua dos Ourives.
Naturalmente vinha pensando na desconhecida que no vira
desde a noite do teatro. Sua paixo era intensa e ardente;
mas vivia de si mesma, nutria-se da prpria seiva. Esperava
com plena confiana de seu amor.
A pequena distncia do canto da Rua do Ouvidor viu ele de
repente a moa que passava na companhia de outras
pessoas. Amlia voltara o rosto. Seu olhar cruzou
rapidamente com o olhar do mancebo. Ela estremeceu com
o costumado calafrio, e acelerou o passo.
Vendo-a sumir-se, encoberta pela esquina, o mancebo
tambm se apressou para acompanh-la; mas chegou
tarde. A moa e as pessoas, que iam em sua companhia,
acabavam de entrar em um carro: na elegante vitria que j
conhecemos. Leopoldo apenas vira um p, que na
precipitao de subir, levantara demais a saia.
Sem conscincia do que fazia, precipitou-se para a
portinhola do carro. O lacaio que a fechava nesse momento,
embargou-lhe o passo. Quando o carro partiu na direo de
So Francisco de Paula, Amlia inclinou-se e lanou de
esguelha um olhar vivo para a esquina.
Leopoldo ficara na calada imvel e exttico de surpresa.
O p que seus olhos descobriram, era uma enormidade, um
monstro, um aleijo. Ao tamanho descomunal para uma
senhora, juntava a disformidade. Pesado, chato, sem
arqueao e perfil, parecia mais uma base, uma prancha,
um tronco, do que um p humano e sobretudo o p de uma
moa.
Os traos especiais da beleza de Amlia no tinham deixado
na memria de Leopoldo a mnima impresso, da primeira
vez que a vira, apesar de contempl-la demoradamente.
30
Entretanto o defeito no lhe escapou, embora passasse de
relance diante de seus olhos.
Parece uma singularidade; mas no . Ningum conta as
ptalas da flor que admira; ningum repara na forma
especial de cada uma das partes de que se compe um todo
gracioso; porm a menor mcula se destaca imediatamente.
 por isso que certos homens, no podendo distinguir-se
entre a gente sisuda e honesta, fazem-se ndoas da
sociedade; tornam-se vcios e torpezas. Assim adquirem a
celebridade, que no obteriam com sua virtude ambgua e
seu mesquinho talento.
O Castro, que no admirara o matiz da rosa, notou a mcula
e desgostou-se dela. Ele sentia-se com foras para amar o
feio e o desgracioso, mas no o disforme, o horrvel. Essa
aberrao da figura humana, embora em um ponto s, lhe
parecia o sintoma, seno o efeito, de uma monstruosidade
moral.
Triste, acabrunhado por pensamentos acerbos, o moo
continuou seu caminho pela Rua dos Ouvires em direo a
casa. Mal havia andado alguns passos, arrependeu-se; no
queria levar  sua habitao esse primeiro transbordamento
de um dissabor to profundo; era melhor deix-lo escoar-se
antes de recolher  solido habitual. Se tivesse alguma coisa
a fazer! Qualquer ocupao bem aborrecida e maante, que
lhe servisse de antdoto ao desgosto ntimo!
Excogitou. Havia ali perto, na Rua Sete de Setembro, uma
pequena loja de sapateiro, ou antes uma tenda, porque
alm do balco via-se apenas uma tosca vidraa, contendo a
obra de trs oficiais que a trabalhavam.
A loja pertencia a um mestre fluminense, que trabalhara por
algum tempo na casa do Guilherme e do Camps, e se
iniciara portanto em todos os segredos da arte. Ningum a
exercia com mais habilidade, esmero e entusiasmo do que
ele; sua obra, quando queria, no tinha que invejar ao
produto das melhores fbricas de Paris, se no o excedia na
elegncia e delicadeza.
31
A razo cardeal de toda a superioridade humana  sem
dvida a vontade. O poder nasce do querer. Sempre que o
homem aplique a veemncia e perseverante energia de sua
alma a um fim, ele vencer os obstculos, e se no atingir o
alvo, far pelo menos coisas admirveis. Mas para que o
homem se entregue assim a uma idia e se cative a um
pensamento,  necessrio ser atrado irresistivelmente, ser
impelido pelo entusiasmo.
 o entusiasmo que faz o poeta e o artista, o sbio e o
guerreiro;  o entusiasmo que faz o homem-idia diferente
do homem-mquina. A fbula de Prometeu' no exprime
seno a alegoria desse fogo celeste d'alma, que anima as
esttuas de Galatia, embora depois dilacere o corao
como a guia do rochedo. Uma fasca dessa eletricidade
moral opera maravilhas iguais  centelha do raio. O que  o
telgrafo a par com a eloqncia?
O Matos tinha o entusiasmo de sua arte; descobrira nela
segredos e encantos desconhecidos aos mercenrios. Para
ele o calado era uma escultura; copiava em seda e couro,
assim como o cinzel copia em gesso e mrmore. Os outros
artistas da forma reproduzem todo o vulto humano ou pelo
menos o busto; ele s tinha um assunto, o p. Mas que
importncia no tomava a seus olhos esta parte do corpo!
Era preciso ouvi-lo, em algum momento de arroubo, para
fazer idia de sua admirao por esse membro da criatura
racional.
Depois de trabalhar muitos anos em casas francesas, o
mestre fluminense resolveu estabelecer-se por sua conta.
Alugou uma pequena loja de duas portas, onde trabalhava
com dois oficiais. A necessidade de ganhar o po o obrigava
a tornar-se mercenrio, fazendo obra de carregao para
vender barato. Mas no meio dessa tarefa ingrata tinha ele
suas delcias de artista. Meia dzia de fregueses,
conhecedores da habilidade do sapateiro, preferiam seu
calado ao melhor de Paris, e o pagavam generosamente.
Essas raras encomendas, o Matos as executava com enlevo;
revia-se em sua obra, verdadeiro primor.
Leopoldo no era um fregus da ltima classe; ele no
conhecia a voluptuosidade de um calado macio, antes luva
do que sapato; seu p no era um enfant gat, um
32
benjamim acostumado a essas delcias; desde a infncia o
habituara a uma vida rude e austera entre a sola rija e o
bezerro. Alm de que seus haveres no chegavam para tais
prodigalidades.
O moo pertencia  classe dos fregueses da obra de
carregao, e preferia a loja do Matos pela modicidade do
preo, e boa qualidade do cabedal, como do trabalho.
Que misteriosa associao de idias trouxera  lembrana
de Leopoldo, naquele momento, a tenda do sapateiro? E por
que motivo se dirigiu ele para ali onde estivera na vspera,
e no para qualquer outro lugar, em que poderia melhor
espancar seu dissabor?
O motivo, nem ele mesmo o sabia naquele instante.
-- Bom dia! As botinas esto prontas? disse entrando.
O Matos, que atendia a alguns fregueses perto da vidraa,
olhou-o surpreso:
-- No disse ontem a V. Sa que s para o fim da semana?
--  verdade!
-- Tinha entre mos esta encomenda. Mas j acabei; agora
posso ajudar os companheiros.
O Matos indicara alguns pares de calado que estavam no
mostrador sobre folhas de papel e prontos a serem
embrulhados.
Leopoldo, chegando-se para o balco, principiou a examinar
a obra acabada, com a distrada curiosidade de quem deseja
esperdiar alguns momentos, para escapar a um
aborrecimento ou para apressar um prazer. Era trabalho fino
do mestre, e contudo no excitaria grande ateno da parte
do moo, se no fosse um par de botinas de senhora j
usadas e meio encobertas pelo papel com outra obra. A
medida era enorme no comprimento e na altura; por isso,
como pelo feitio, devia excitar-lhe reparo.
Na vspera quando viera  loja, casualmente observara a
obra que o Matos estava acabando. Vendo h pouco na Rua
33
do Ouvidor o p monstruoso da moa, tivera uma confusa e
tnue reminiscncia das botinas da loja. Fora esse o fio
misterioso que o conduzira insensivelmente quela casa.
Agora compreendia a encadeao: a botina monstro
pertencia sem dvida ao p aleijo.
Leopoldo depois que entrevira sob a orla do vestido o p da
moa, ainda alimentava uma dvida, que pretendia cevar
com todas as sutilezas e argcias de seu esprito. Talvez ele
visse mal; talvez a sombra, o estribo do carro, qualquer
outro objeto o tivesse iludido. O aleijo s existia em
sua imaginao; fora um desvario dos sentidos. Com efeito,
como supor que uma senhora pudesse andar graciosamente
com semelhante pata de elefante?
Mas as botinas a estavam sobre o balco que no lhe
deixavam a menor dvida. O p disforme existia; era aquele
o seu molde, o seu corpo de delito, e por ele se podia ver
quanto devia ser horrvel a realidade. Agora Leopoldo podia
apreciar os traos parciais que lhe tinham escapado pela
manh; esse p era cheio de bossas como um tubrculo;
no arremedava nem de longe o contorno dessa parte do
corpo humano: era uma posta de carne, um cepo!
Junto dessa deformidade morta, inventada para cobrir a
deformidade viva, havia outra obra que chamara a ateno
do mancebo por sua singularidade.  primeira vista era um
volume semelhante ao das botinas monstruosas embora de
linhas regulares: parecia uma ligeira almofada preta sobre a
qual se elevasse uma botina de senhora, muito elegante
apesar de comprida. O tubo cinzento ficava oculto sob
frocos de cetim escarlate. Do rosto ao bico descia um galho
de rosas, cujas hastes cingiam graciosamente, como uma
grinalda, toda a volta do p at o calcanhar.
Uma das botinas ainda tinha dentro a frma; enquanto a
outra j estava sem ela. Naturalmente o Matos procedia
quela operao quando foi distrado pelos fregueses e
compradores; deixara-a pois em meio, deitando em cima da
obra, para encobri-la, uma folha de papel.
A frma no podia passar despercebida ao observador.
Vendo pouco antes a botina disforme, Leopoldo a tinha
34
considerado o modelo exato do p monstruoso, que ele
avistara. Enganara-se: a botina era j o disfarce, a mscara
do aleijo. Sua cpia ali estava em horrvel nudez, no
grosseiro toco de pau, cheio de buracos e protuberncias.
Mas se essa observao acabou de esmagar o corao do
mancebo, levou insensivelmente seu esprito a apreciar pela
primeira vez a superioridade do Matos em sua arte. Ali
estava a imagem do aleijo, o calado que outros sapateiros
lhe fariam para cobrir a monstruosidade, sem a dissimular.
Entretanto, o mestre fluminense conseguira, por um esforo
feliz, desvanecer a deformidade sob a aparncia de uma
botina elegante.
A almofada sobre que parecia descansar a botina, era um
solado alto porm oco, onde as carnes moles do p
monstruoso, comprimidas pela botina superior, podiam
abrigar-se.
Os frocos de cetim e as grinaldas de rosas enchiam as covas
e desvaneciam as protuberncias sseas, com muita
delicadeza, sem avolumar o tamanho do coturno. Na sola
negra se debuxava, em proporo  botina superior, a alva
palmilha com seus contornos harmoniosos; de modo que
olhando-se andar a pessoa, no se perceberia facilmente o
tamanho do calado.
Acabara o Matos de aviar os fregueses, e chegando-se para
o balco, incomodou-se com ver o moo a observar a obra;
ia talvez interromp-lo rispidamente, quando percebeu em
seu rosto uma expresso viva de ardente admirao. O
artista ficou lisonjeado com esse elogio to eloqente em
sua mudez; e  contrariedade sucedeu a satisfao do
amor-prprio.
Foi Leopoldo, que, percebendo junto de si o sapateiro
parado, afastou-se do balco, receando ter sido indiscreto.
Ia sair, quando entrou na loja um lacaio de libr azul com
vivos de escarlate e branco. O mancebo o reconheceu pelas
feies; era o mesmo que o impedira de chegar  portinhola
do carro, na Rua do Ouvidor.
-- Ah! exclamou o Matos, avistando o criado. Est quase
pronto.
35
-- No posso esperar! replicou o lacaio com a insolncia do
rafeiro de casa rica.
--  s embrulhar.
Leopoldo disfarava; fingindo olhar o calado exposto na
vidraa, viu de esguelha o sapateiro tirar a frma da outra
botina, bater o ponto e dar o ltimo polimento  sua obra;
feito o que arranjou o embrulho.
-- Est bem amarrado? perguntou o lacaio. Olhe que da
outra vez j se perdeu uma botina por sua causa, e eu 
que levei a culpa.
-- No tenha susto; desta vez est bem seguro, respondeu o
Matos.
Foi-se o lacaio; e Leopoldo com o semblante carregado de
tristeza, despediu-se, arrependido de ter ido  loja. Que
saudades tinha da sua dvida!
-- A dvida, pensava ele,  ainda um raio de esperana!
VII
A esse tempo Horcio, sentado em uma poltrona na casa de
Bernardo, fumava o seu conchita, com o olhar, ora na
calada, ora no espelho fronteiro,  espreita do menor vulto
de mulher.
O leo pensava:
-- Choveu; as ruas ainda esto molhadas. Qual  a senhora
que tendo um p mimoso e uma perna bonita, no aproveita
um destes dias para atravessar a Rua do Ouvidor? Se
deixarem escapar estes pretextos de mostrar semelhantes
maravilhas, morrero elas desconhecidas, apenas vistas por
um dono avaro, mas nunca admiradas, porque a admirao
 sentimento que precisa da luz plena, da grande expanso.
Se a Vnus de Praxteles existisse, mas s para mim,
palavra de honra que sua beleza no excitaria em minha
alma o menor entusiasmo.
Nessa ocasio Amlia passava diante da loja, e voltando-se
recebeu a cortesia do leo, a quem respondeu com um
36
sorriso amvel. Parando na vidraa, achou ela pretexto para
entrar, e comprou uma galanteria Durante esse tempo
Horcio recebeu por diversas vezes o olhar e o sorriso da
moa.
Acompanhando com a vista o passo airoso e sutil de Amlia,
Horcio exclamou, dirigindo-se ao caixeiro do Bernardo:
-- Que passo gracioso!  o andar da gara!
Estas palavras foram ditas em voz bastante alta, para que a
moa ouvisse; um ligeiro estremecimento que se notou na
suave ondulao do talhe revelou que o leo lograra seu
desejo. A moa ouvira com efeito a fineza.
Recostado de novo na poltrona o leo continuou a pensar:
-- Realmente, que elegncia no andar! Eu seria capaz de
apostar que esse andar era do pezinho, do meu adorado
pezinho, se j no tivesse descoberto a dona do primor. Mas
Laura no vem!... O criado me disse que ao meio-dia, e 
quase uma hora! Ter mudado de resoluo?... No duvido,
com aquele zelo feroz que tem por sua jia, talvez no
quisesse vir para no ser obrigada a mostr-la. Um avaro
no fecha com mais cuidado a burra, do que ela esconde
seu tesouro. Que pecado! Subtrair ao mundo essa maravilha
que Deus fez para ser admirada! Ah! eu desejava ser uma
nao; assim como h demnios-legies, por que no pode
haver homens-povos? Se o fosse, daria um trono a essa
mulher, somente para que ela institusse o beija-p. Como
eu seria corteso! Como eu a beijaria por minhas cem bocas
de sdito!
O mancebo sobressaltou-se; vira uma sombra que
assomava no espelho fronteiro. Era Laura. Que devia fazer?
Correr  porta para ser visto pela moa ou deixar-se ficar na
poltrona para melhor descobrir o p adorado?
A atitude do leo revelava a hesitao de seu esprito; com
o corpo lanado  frente parecia fazer um esforo para se
conservar sentado. Laura, que de seu lado j o tinha
avistado no espelho, ficara em um estado de perturbao
indizvel.
37
-- Que tem, prima? perguntou-lhe um senhor que a
acompanhava.
-- Nada! balbuciou a moa.
A princpio Laura fizera um movimento para recuar, mas
arrependendo-se avanou com afoiteza, e passou
rapidamente pela frente da loja, sem volver um olhar para
dentro. Por mais que o leo se derreasse na poltrona, no
logrou ver coisa alguma; a senhora arrastava a fmbria do
vestido pela calada coberta de lama, com o mesmo
descuido que teria se caminhasse sobre rico tapete.
-- Est zangada comigo; est furiosa! Desde a noite do
teatro que no me pode ver; e parece que preparou-se para
o assalto, porque achei as avenidas da praa j tomadas e
vigorosamente defendidas. A mucama  uma Grgona, o
porteiro um Crbero; apenas consegui abrandar o moleque,
porque  um idiota!... Nunca vi uma ferocidade igual; creio
que a leoa da floresta no defende seu cachorrinho com
sanha igual  desta leoa de sala. Parece incrvel; mas eu
conheo de quanto  capaz a vaidade da mulher. Todo este
furor no  mais do que um assomo de faceirice; percebeu
que estou apaixonado pelo pezinho mimoso, e quer-me
trazer atado como um cativo ao seu carro de triunfo.
Realmente uma moa bonita no pode ter maior satisfao:
ver-me a mim, Horcio de Almeida, o primeiro conquistador
do Rio de Janeiro, curvar-se humilde, no a seu olhar, a seu
sorriso,  beleza de seu rosto, ou  graa de seu talhe, mas
 planta de seus ps divinos! Fazer-me tapete de seus
passos!... Que pode mais desejar a rainha dos sales
fluminenses?
O moo mordeu a ponta do bigode negro e ficou alguns
instantes muito pensativo.
--  preciso mudar o plano de ataque! Comecei  maneira
de Csar, atacando com impetuosidade. Vou contemporizar
conforme a escola de Fbio; simulo uma retirada; o inimigo
avana, eu o envolvo; corto-lhe a retirada, e ele rende-se.
Arraso o Humait daquele vestido que defende o meu
pezinho adorado como uma casamata. A indiferena  a
serpente tentadora da mulher.
38
Em conseqncia destas reflexes, Horcio deixou-se ficar
onde estava, e no seguiu a moa. Quando sups que ela j
ia distante, foi procurar algures, em um bilhar, o
preservativo contra a tentao de cortej-la, ou antes o seu
pezinho.
-- Ela h de reparar no meu eclipse! murmurou com certa
confiana.
Entretanto Laura, descendo a Rua do Ouvidor, encontrara
pouco adiante, na casa do Masset, Amlia em companhia da
me. As duas amigas no podendo vir juntas, tinham
ajustado seu encontro para aquele ponto. O primo despediuse,
e as senhoras continuaram seu itinerrio pelas diferentes
lojas e casas de modas.
Ao cabo de duas ou trs horas, tomaram o carro que estava
parado prximo  Rua dos Ouvires e partiram na direo do
Catete. A poucos passos dali, Amlia perguntou ao lacaio
sentado na almofada:
-- Trouxe?
-- Sim, senhora; est a dentro.
-- Bem!
O carro aproximava-se do Largo da Lapa, quando Amlia
disse:
-- Podamos ir agora ao Passeio Pblico?
-- To tarde! replicou Laura.
-- Deixa-te disso! observou a me da moa.
-- Por qu, mame? H tanto tempo que l no vamos.
-- No h nada de novo.
-- Ora, eu queria ver a gara. Ainda no a vi.
-- Viste, sim!
-- Mas no reparei numa coisa!...
39
-- Em qu?
-- Uma coisa. Depois direi.
Tanto insistiu que a me cedeu a seu capricho, e deu ordem
ao cocheiro que chegasse at o porto do Passeio Pblico.
As senhoras desapareceram na curva de uma das alamedas
do parque, em direo ao lago. Amlia queria ver o andar da
gara, que Horcio tinha comparado ao seu.
Nessa ocasio passava o tlburi do nosso leo, que vinha do
lado da Ajuda. Um atropelo, produzido por uma gndola mal
conduzida, ia atirando o tlburi sobre o carro parado no
porto do Passeio Pblico. Este incidente chamou a ateno
do moo para o cocheiro, que derreado sobre a almofada
no se movera.
A memria apresenta s vezes um fenmeno curioso;
conserva por muito tempo oculta e sopitada uma impresso
de que no temos a menor conscincia. De repente, porm,
uma circunstncia qualquer evoca essa reminiscncia
apagada; e ela ressurge com vigor e fidelidade.
Foi o que sucedeu a Horcio. Minutos antes, por maiores
esforos que fizesse para recordar-se da libr do lacaio,
portador da botina perdida, no o conseguiria decerto.
Entretanto bastou-lhe ver a roupa do cocheiro, para acudirlhe
imediatamente ao esprito a imagem desvanecida. Era
esse o carro, que vira quinze dias antes na Rua da
Quitanda; no havia dvida.
O leo mandou parar o tlburi e entrou no Passeio Pblico;
depois de percorrer inutilmente vrias alamedas, afinal
descobriu entre as rvores, alm do lago, as ondulaes dos
vestidos de algumas senhoras acompanhadas por um lacaio,
e tomou apressadamente aquela direo.
O terreno estava mido da chuva da manh; e por isso o p
dos passeadores deixava o rasto impresso na branca e fina
areia das alamedas. Notando esta circunstncia, Horcio
procurou o vestgio de alguma botina irm da que achara, e
guardava como uma relquia; ficou brio de contentamento
reconhecendo entre muitas pegadas o leve debuxo que
deixara no cho o mimoso pezinho.
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Se no fosse o anelo de alcanar as senhoras e reconhecer a
dona incgnita do tesouro, Horcio se houvera ajoelhado a
beijar o rasto da fada de seus amores; mas as senhoras
caminhavam rapidamente para o porto.
Por mais que se apressasse o leo, chegando  sada,
apenas viu o carro que partia. Felizmente adiantando-se
pde reconhecer Amlia, que lhe sorriu e inclinou-se para
acompanh-lo com os olhos.
-- E ela! Que pateta sou eu! Devia ter adivinhado. H pouco,
vendo-a passar pela Rua do Ouvidor, tive um
pressentimento! Aquele andar cheio de graa no podia
enganar.
No dia. seguinte o leo fez-se apresentar ao pai de Amlia,
abastado consignatrio de caf, estabelecido  Rua Direita.
O encontro deu-se na Praa do Comrcio. Horcio a foi a
pretexto de comprar aplices; e um amigo, corretor de
fundos, prestou-lhe aquele servio. O negociante ofereceu a
casa ao moo que aceitou a fineza com efuso de
contentamento.
O Sr. Pereira Sales habitava nas Laranjeiras uma bela
chcara. Amlia era filha nica, e seu dote, convertido em
cem aplices, s esperava o noivo. Quanto  mulher, tinha
uma boa penso instituda no montepio geral. Seguro assim
o futuro, vivia o negociante com certa largueza,
economizando pouco ou nada de seus lucros anuais.
Quando Horcio teve conhecimento destas particularidades
domsticas, sorriu.
-- Bem! O meu pezinho tem um dote para seu calado. Pode
andar com luxo!
A primeira vez que Horcio visitou a famlia de Pereira
Sales, encontrou Laura na sala; a moa fora passar a noite
com a amiga, e conversava jovialmente. Apenas viu o leo,
demudou-se; e instantes depois, inventou um pretexto para
retirar-se, apesar das instncias de Amlia.
Horcio pouca ou nenhuma ateno deu  mudana que se
tinha operado em Laura, em sua retirada repentina. Desde
41
que a moa no era a dona feliz do mais lindo p do mundo,
tornava-se para ele uma criatura indiferente; tanto mais
quanto sua alma estava ali de rojo beijando a fmbria de
seda, que lhe ocultava o to ansiado tesouro.
Em Amlia, vrias impresses produziu a apresentao do
moo. No primeiro momento acreditou que o leo viera
atrado por ela; mais tarde, lembrando-se do teatro,
suspeitou que fosse apenas um meio de aproximar-se de
Laura; finalmente ocorreu-lhe que podia no passar de um
encontro casual de seu pai, e de uma delicadeza da parte de
Horcio.
Suas dvidas porm se dissiparam poucos dias depois.
Uma noite a moa, impelida por um movimento de faceirice,
soltou estas palavras, no meio de uma conversa com o leo:
-- Laura est uma ingrata! H tanto tempo que no vem
passar uma noite comigo.
Ao mesmo tempo fitava os olhos no moo para ver a
expresso de sua fisionomia.
--  uma fineza de sua amiga, que eu agradeo de corao,
respondeu Horcio.
-- Uma fineza?... perguntou Amlia pressentindo laivos de
ironia.
-- Quando sua amiga est aqui, a senhora sem dvida no a
deixa!
--  muito natural.
-- J v pois que eu tenho razo. Se ela viesse...
-- Eu teria cimes, D. Amlia,
A moa corou.
-- Pois amanh Laura h de passar a noite comigo.
42
Estas palavras foram ditas com o estouvamento da menina,
que procura disfarar um prazer sob a mscara da
contrariedade. Mas a mscara  to risonha, que no ilude.
-- Quer-me tanto mal assim? perguntou Horcio. No
admira; uma paixo ardente e impetuosa, como eu sinto
pela senhora, no devia ter outra sorte. O verdadeiro amor
foi e ser sempre infeliz; no h mulher que o compreenda.
Amlia com as faces a arder no sabia que fizesse; sua mo
trmula brincava com as flores de um vaso, que vacilou
sobre o consolo e caiu no cho. O fracasso da porcelana,
despedaando-se, chamou a ateno das pessoas que
estavam na sala; assim rompeu-se o enleio de Amlia
A moa retirou-se confusa para o interior da casa.
Momentos depois entrou de novo na sala, j serena e
prazenteira. Seus olhos procuraram Horcio, para oferecerlhe
o meigo sorriso que trazia nos lbios.
Esse sorriso dizia em sua eloqncia muda o seguinte:
-- Se nunca a mulher soube compreender a verdadeira
paixo, serei eu a primeira.
Foi esta pelo menos a traduo de Horcio, perfeito fillogo
do amor, e habituado a decifrar esses hierglifos dos lbios
de mulher.
VIII
No abandonemos o pobre Leopoldo  sua amarga
decepo.
O moo chegara a casa mergulhado na tristeza profunda,
que sobre ele derramaram os acontecimentos da manh.
Talvez a morte de Amlia no lhe causasse tamanho pesar,
como o daquela cruel decepo que estava presentemente
curtindo.
O aleijo excita geralmente uma invencvel repugnncia,
repassada de terror. A aberrao da forma humana abate o
orgulho do bpede implume, fazendo-o descer abaixo do
orangotango. Ao mesmo tempo,  ameaa viva a uma das
43
mais caras aspiraes do homem: a esperana de renascer
em outra criatura, gerada de seu ser. Se a fatalidade pesar
sobre a prole querida?
Imagine-se que dor era a do mancebo, quando via a
deformidade surgir de repente para esmagar em seu
corao a imagem da mulher amada, da virgem de seus
castos sonhos?
O contraste sobretudo era terrvel. Se Amlia fosse feia, o
seno do p no passara de um defeito; no quebraria a
harmonia do todo. Mas Amlia era linda, e no somente
linda; tinha a beleza regular, suave e pura que se pode
chamar a melodia da forma. A desproporo grosseira de
um membro tornava-se pois, nessa esttua perfeita, uma
verdadeira monstruosidade. Era um berro no meio de uma
sinfonia; era um disparate da natureza, uma superfetao
do horrvel no belo. Fazia lembrar os dolos e fetiches do
Oriente, onde a imaginao doentia do povo rene em uma
s imagem o smbolo dos maiores contrastes.
Nessa angstia passou Leopoldo o resto daquele dia e os
que se lhe seguiram.
-- No amo a sua beleza material, oh, no! pensava o
mancebo. O que eu adoro nela  a beleza moral, a alma
nobre e pura, a criatura celeste, a luz, o anjo. Qualquer que
fosse o invlucro de seu esprito imaculado, creio que havia
de ador-la tanto, como a adorei desde o momento em que
primeiro a vi.
"Fosse ela feia para os outros, que chamam formosura o
que lhes encanta os sentidos, para mim seria sempre bela,
porque meus olhos haviam de v-la atravs de seu
esplndido sorriso. O que  o corpo humano no fim de
contas? O que  o contorno suave de um talhe elegante, e a
ctis acetinada de um rosto ou de um colo mimoso? Um
pouco de matria a que a luz transmite a cor, o esprito e a
vida. Tirem-lhe esses dois alentos, e vero que lodo impuro
e nauseante ficam sendo aquelas formas sedutoras."
"Pois luz e esprito no eram a essncia da alma de Amlia?
Quando essa alma a vestia com uma tnica resplandecente,
que mulher se lhe podia comparar em lindeza? Ento no
44
era somente formosa, flutuava em um ter de beleza
deslumbrante."
"Mas ela no  feia,  aleijada!..."
Um soluo afogou as tristes lucubraes do mancebo. Ele
repassou outra vez na mente as circunstncias de sua triste
descoberta; quis duvidar, combateu pertinazmente sua
prpria razo que lhe apresentava a realidade, e afinal
sucumbiu, curvando-se  implacvel certeza. Tinha visto
uma vez, e como essa no bastasse, o acaso lhe oferecera
ocasio de apalpar a verdade e saciar-se dela.
-- No se admira a Vnus de Milo, uma esttua mutilada?
dizia o mancebo relutando contra sua viva repugnncia. No
se admira o primor da arte grega, apesar de no restar dela
mais do que uma cabea e um torso de mulher? Essa beleza
truncada no vale a beleza aleijada? A mutilao no
repugna tanto ou mais do que a deformidade?
A razo de Leopoldo no o deixava embalar-se muito tempo
nesse pensamento consolador Replicava logo, refutando
vigorosamente as argcias do corao:
-- A esttua mutilada, que excita a admirao do mundo,
no  a cpia integral da beleza que lhe servia de tipo, mas
um fragmento apenas dessa cpia. A alma, que se extasia
na contemplao desse fragmento, recompe o ideal do
artista. Admira-se a Vnus de Milo, como se admira um
esboo no acabado de Rafael; como se admira a ptala de
uma rosa, arrancada da corola. Mas, fosse embora aquele
primor de estaturia a reproduo exata de uma mulher, a
mutilao respeita a beleza; o aleijo a deturpa. Se a
mulher que se ama perdesse um p, seria desgraada; com
um p monstruoso,  mais do que desgraada,  repulsiva.
Leopoldo deixava-se convencer por estas sugestes:
-- Infelizmente assim . Mas por que h de ser assim? A
mutilao  um fato humano; o aleijo  um fato natural.
Essa aberrao do princpio criador, esse desvio da forma
primitiva, indicam sem dvida um vcio na essncia do
organismo. No se tem verificado que nos corpos mal
conformados de nascena habita sempre uma alma
45
enferma? Nos corcundas sobretudo, porque a espinha dorsal
 o tronco da inteligncia. A deformidade de um membro,
de um ramo apenas, no denota eiva to profunda do
esprito,  certo, mas revela que a alma no  nobre e
superior. No se concebe o anjo dentro de um aleijo.
O resultado destas cogitaes era a gota de fel espremido,
que ia filtrando a pouco e pouco no corao e acabaria por
saturar todas as doces reminiscncias dos ltimos dias.
Leopoldo convenceu-se que no devia amar a desconhecida;
mas, ao contrrio, arrancar de sua alma os germes da
paixo nascente.
Tomando esta.resoluo, o moo, que vivia muito retirado
depois de suas desgraas de famlia, esteve a lembrar-se de
algumas antigas relaes. Veio-lhe o desejo de cultiv-las
de novo. Um instinto lhe dizia que para gastar as primcias
de um corao virgem, no h como o atrito do mundo.
Entre as casas que outrora freqentava, escolheu para a
primeira noite a de D. Clementina, amiga ntima de sua
irm. Era uma senhora j no declnio da idade e da
formosura; gostava muito de danar, e por isso reunia
constantemente em sua sala as moas de sua amizade.
Logo que se achavam presentes quatro pares, a dona da
casa dava o sinal, o marido arredava a mesa do centro, o
filho, menino de quinze anos, sentava-se ao piano e...
-- Chass-crois! gritava D. Clementina.
Nesta casa Leopoldo tinha certeza, no s de ser bem
recebido, como de encontrar bastante arrudo para aturdirse
e abafar uns gemidos que sentia s vezes repercutirem
no corao. Tinham decorrido cinco dias depois da
decepo; s oito horas da noite entrou o moo na sala de
D. Clementina, que o recebeu com surpresa cheia de
amabilidades.
Alm de estimado, acontecia que ele era justamente o
quarto par. Tirado o dono da casa, o Sr. Campos, o filho
Alfredo, e trs velhas, invlidas da dana, havia na sala
cinco senhoras para dois cavalheiros; servindo uma senhora
de cavalheiro, ainda faltava metade de um par.
46
Quando a campainha anunciou mais uma visita, D.
Clementina de olhos fitos na porta da sala, disps-se a
receber o recm-chegado com o seu mais afvel sorriso.
Vendo Leopoldo, correu a ele, e desfolhando-lhe um
ramalhete de amabilidades, tranou-lhe o brao; antes que
o moo tomasse p na sala, era arrebatado pela quadrilha, a
compasso de galope.
Realmente ele no podia escolher melhor. A agitao
daquela dana rpida, sem pausa; a confuso que os pares
criavam de propsito para aumentar a animao; os risos e
gracejos que provocavam os menores incidentes da
quadrilha; todo esse rumor e atropelo tinham por tal forma
sacudido o esprito de Leopoldo, que as idias e recordaes
tristes lhe caram, como as folhas secas de uma rvore,
abalada pelo vento rijo do outono.
Sentiu o corao vazio, porm tranqilo; o prazer vivo e
cintilante daquela reunio, apenas roava-lhe pela
superfcie; no penetrava, mas tambm j no
transudavam-lhe do ntimo as amarguras de que nos
ltimos dias se tinha saturado.
De repente operou-se na perspectiva da sala uma
transformao inesperada. Amlia entrara; e sua graa
difundiu-se com um influxo celeste, no meneio de seu talhe
elegante, na suavidade de sua voz, na irradiao de seus
olhares.
Leopoldo embebeu-se naquela suave apario, como da
primeira vez que a vira, mas para percorrer em um pice,
as fases de seu amor, e cair de novo na esmagadora
decepo.
De repente aquela esttua luminosa escureceu a seus olhos
deixando apenas um resduo negro: esqueleto calcinado que
arrastava uma deformidade. Debalde Amlia se ostentava
no fulgor de sua beleza, toucada pelos primeiros arrebis do
amor; debalde as ondulaes de seu corpo debuxavam
formas encantadoras, e o sorriso de seus lbios destilava
uma fragrncia mstica de beijos puros; os olhos de
Leopoldo no viam nenhum desses encantos. Atravs dos
folhos do vestido roagante, sua vista fitava-se implacvel
47
no p monstruoso que lhe esmagava o corao como a pata
grosseira de um animal.
Todos os encantos dessa criatura, ele os despia de seu
manto sedutor e dissecava-os com frio rancor. A inflexo
voluptuosa do talhe provinha da resistncia que opunha ao
andar o enorme p; o passo ligeiro era um esforo supremo
para disfarar o aleijo, o sorriso gracioso um enleio para
prender os olhos estranhos, no permitindo que eles se
abaixassem at  fmbria do vestido.
E por isso mesmo o olhar de Leopoldo, olhar frio, cruel,
inexorvel, se tinha cravado na orla da saia elegante, donde
no havia foras para arranc-lo.
Amlia sentiu esse olhar cruciante e estremeceu, tomada de
um vago terror. Imediatamente sentou-se, e arranjando as
dobras do vestido, procurou disfarar; mas em vo: o olhar
do moo continuava fito no mesmo ponto e produzia nela
uma sensao incmoda.
--  D. Amlia, filha de um negociante, chamado Sales. No
conhece?
Estas palavras foram dirigidas a Leopoldo por D.
Clementina, que sentando-se a seu lado, acompanhou-lhe o
olhar fito.
-- No, minha senhora.
-- Ento vou apresent-lo.
-- Obrigado, D. Clementina; depois.
-- No acha muito galante?
Leopoldo hesitou:
-- Oh! muito! . . .
Viera-lhe nessa ocasio o mesmo mpeto que sentem de
ordinrio os amantes em igual situao: o de criticar e
desmerecer nas prendas da mulher que os faz sofrer.  uma
reao natural do corao; Leopoldo, porm, julgou indigno
de si tal procedimento; tinha o direito de afastar-se, de fugir
48
com horror dessa mulher, mas no o de ofend-la. A culpa
de am-la era sua, e no dela.
Aproveitou um momento de distrao da dona da casa, para
tomar o chapu e esquivar-se sem que o percebessem.
Amlia, porm, o viu; seus olhos ficaram por algum tempo
presos na porta por onde acabava o moo de sair. Quando,
passado um instante, caiu em si, ficou surpreendida. Que
tinha ela com aquele desconhecido?
Ao chegar, vendo o rosto plido e os olhos profundos, que
to desagradvel impresso haviam deixado em seu
esprito, a moa havia sentido um mal-estar ntimo. Vinha
com a alma cheia das primeiras delcias de um amor
nascente; com as doces emoes da declarao de Horcio.
A presena de Leopoldo foi um travo.
Mas tambm para que viera? Por que no ficara em sua
casa esperando Horcio?
Vo l sondar o corao feminino. Agora que sabia-se
amada, a moa queria gozar de seu triunfo, e ver humilde e
abatido a seus ps o rei da moda, o soberbo leo. O meio
era fazer-se ardentemente desejada, tornar-se difcil e
esquiva, embora lhe custasse o sacrifcio dos momentos
agradveis que podia passar junto de Horcio.
A presena de Leopoldo em casa de D. Clementina a
incomodara, e entretanto seu olhar parecia agora sentir a
ausncia do mancebo.
A princpio havia ali uma pessoa demais; agora faltava
alguma coisa. Se no era um homem, era uma curiosidade,
uma emoo.
-- Amlia!
A moa voltou-se para ouvir D. Clementina que a chamava.
-- Quero apresentar-lhe um moo, que a acha muito bonita.
Dizendo estas palavras, a dona da casa corria os olhos pela
sala  busca de algum.
49
-- No o vejo agora.
-- Quem ?
-- O Castro... Conhece?...
-- No, senhora.
-- Querem ver que j se retirou?
Amlia pde reter o monosslabo que ia cair-lhe do lbio,
confirmando a suposio da dona da casa. Tinha adivinhado
que se tratava do seu desconhecido.
-- Ento ele me acha bonita?
-- O Castro?... Muito. Creio que ficou apaixonado! Se visse
os olhos que lhe deitava quando a senhora chegou!
-- Ento foi de paixo que ele fugiu?
-- Quem sabe? A paixo  como o vinho que em uns d para
rir, e em outros para chorar. H namorados que perseguem,
e outros que fogem!
Amlia julgou prudente desviar a conversa daquele assunto
escabroso, no qual D. Clementina se comprazia, porque lhe
recordava sua mocidade j desvanecida.
IX
Depois daquela noite Leopoldo viu Amlia duas ou trs
vezes; e de todas sentiu a mesma impresso que lhe
causara a presena da moa em casa de D. Clementina.
Era o mesmo desencanto, a mesma insistncia de seu
esprito para enxergar a formosura da donzela atravs de
um prisma deforme e caricato. Nessas ocasies ele sofria
diante da moa a fascinao do horrvel, como o poeta sofre
muitas vezes a fascinao do belo em face de um objeto
desgracioso. Era ento um poeta pelo avesso; um vate do
monstruoso. Tinha na imaginao um gnomo de Victor
Hugo: criava Quasmodos e Gwynplaines do sexo feminino
com uma fecundidade espantosa.
50
Quando porm a moa desaparecia de seus olhos, operavase
em seu esprito completa mutao. Esquecia
completamente o aleijo, para s lembrar a linda e graciosa
figura, que poucos momentos antes sua vista repelia.
Amlia ausente vingava Amlia presente. O corao do
mancebo detestava tanto esta, quanto adorava ainda a
outra.
-- Este amor  um inferno, pensava ele; tem um vcio
orgnico. H de viver de dores e lgrimas; h de alimentarse
de minhas tristezas. E assim ir definhando at morrer
de consuno, depois que me tiver devorado todo o corao.
Que importa? Servirei de pasto a este abutre. O que somos
ns afinal de contas? Uma presa; enquanto vivos, a presa
das molstias e das paixes prprias ou alheias; depois de
mortos, a presa dos vermes ou das chamas.
Com tal disposio de esprito voltou ele dias depois  casa
de D. Clementina. Nesta noite havia uma pequena partida;
Leopoldo contava, pois, encontrar Amlia.
Ali estava com efeito, vestida de escarlate e branco; e
adornada com a sua graa arrebatadora. Quando o moo
entrou, ela danava com as costas voltadas para a porta e
no o viu; porm, momentos depois virou o rosto como se
obedecesse a um impulso estranho, e encontrou o olhar
ardente de Leopoldo.
A moa fez insensivelmente um movimento para afastar-se,
que entretanto a aproximou da porta. Aquele olhar que a
atraa ao mesmo tempo que a repelia, causou-lhe um
desvanecimento misturado de terror. Felizmente a terceira
figura da marca da contradana comeava, e a distraiu de
sua emoo.
Estava ela outra vez parada conversando com o par, quando
sentiu um calafrio; sem ver, conheceu que o mancebo se
aproximava, que seus lbios se abriam para dirigir-lhe a
palavra:
-- Minha senhora, terei a honra de danar com V. Exa a
seguinte quadrilha...
51
Continham uma pergunta ou uma asseverao estas
palavras? Fora impossvel diz-lo. O tom parecia mais
afirmativo do que interrogativo, porm o olhar do mancebo
esperava, se no exigia resposta.
A confuso da dana permitiu a Amlia esquivar-se, sem
responder. Quando, terminada a quadrilha, voltou a seu
lugar, ficou perplexa. Tinha ela se comprometido ou no a
danar a seguinte quadrilha com Leopoldo? No respondera,
 certo; mas recordava-se vagamente de ter feito uma leve
inclinao com a cabea. Sem dvida o moo vira esse
movimento e o tomara por um sinal de assentimento.
Quando um de seus inmeros admiradores vinha pedir-lhe a
prxima quadrilha, ela respondia hesitando que j tinha par;
apenas o cavalheiro se afastava, arrependia-se de no o ter
aceitado, rompendo assim o compromisso tcito; e ficava
ansiosa por outro convite. Entretanto novo par se
apresentava, que recebia a mesma recusa.
Nesse jogo, muitas vezes repetido, passou o intervalo. O
piano deu o sinal da quadrilha; Leopoldo aproximou-se de
Amlia, e inclinando-se, sentiu no seu estremecer o brao
tpido de Amlia. A moa no teve conscincia do que se
passou at o momento em que o moo a conduziu a seu
lugar. Recordava-se apenas de que seu par lhe falara por
muito tempo, com a voz baixa, porm palpitante de
emoo.
Assim fora. Passada a primeira confuso da quadrilhas
Leopoldo, fitando o olhar no semblante da moa, deu
expanso aos sentimentos que lhe tumultuavam dentro d'
alma. Com a fronte baixa e as faces cheias de rubores,
Amlia parecia absorvida e reconcentrada enquanto o moo
falava. Dir-se-ia que ela no o ouvia.
-- A senhora acredita, D. Amlia, na atrao irresistvel, que
impele duas almas entre si, e as chama fatalmente a se
unirem e absorverem uma na outra?... Eu acreditava nessa
fora misteriosa, mas ainda no tinha chegado o momento
de experiment-la em mim, de sentir em meu ser este elo
divino que prende as almas atravs do tempo e da matria.
Senti-o h vinte dias, quando a vi pela primeira vez, quando
a senhora se revelou ao meu corao.
52
Leopoldo referiu as emoes que sentira, na ocasio de seu
primeiro encontro com Amlia; a impresso que ela deixara
em seu esprito; e os sonhos em que se embalara sua
imaginao nos dias seguintes.
-- Tive ento, continuou o mancebo com acento profundo e
comovido, tive, ento, e depois, a prova de que esse enlevo
de meu ser. essa abstrao de minha existncia para
absorver-se noutra, era a atrao moral e nada mais. Via,
admirava, adorava na senhora uma coisa somente: sua
alma. No sabia, ainda hoje no sei, se a mulher que eu
amo  bonita para os outros; sei que para mim  de uma
beleza divina. Perdesse ela a graa e a formosura que aos
outros seduz, para mim seria a mesma; eu havia de adorla
com o mesmo ardor. Sua alma  filha de Deus, e como
ele de uma magnificncia imortal.  uma estrela que no
tem eclipse.
Leopoldo inclinou a fronte para falar quase ao ouvido da
moa:
-- Outrora julgava impossvel que se amasse o horrvel.
Agora reconheo que tudo  possvel ao amor verdadeiro, ao
amor puro e imaterial. No s reconheo, mas sinto-me
capaz de nutrir uma dessas paixes mrtires! Oh! sinto-me
capaz de amar o anjo ainda mesmo encarnado em um
aleijo! . . .
Leopoldo falou ainda por muito tempo de seu amor a
Amlia, sem que ela se animasse a interromp-lo. Aquela
palavra ardente, impetuosa, embora vendada por certo
pudor d'alma, a subjugava; ela no tinha coragem, nem
mesmo vontade de subtrair-se  sua influncia.
Quando Amlia, conduzida por Leopoldo, se dirigia a uma
cadeira, D. Clementina aproximou-se:
-- Ah! Eu queria apresent-lo, disse a Leopoldo; mas no
teve pacincia para esperar.
Depois reclinando ao ouvido de Amlia, perguntou-lhe:
-- Ento? No lhe disse que a achava muito bonita?
53
-- Ao contrrio, D. Clementina; deu-me a entender que me
acha horrvel.
-- Ande l.
-- Deveras!
--  impossvel.
Amlia, sentando-se, evocou a lembrana de Horcio, para
fazer no seu esprito o paralelo entre o elegante leo e o
estranho mancebo com quem acabava de danar. Um tinha
todas as prendas que seduzem a imaginao: era formoso,
trajava com esmero, conversava com muita graa. O outro
no possua nenhum desses atrativos; seu exterior alheava
as simpatias; quando falava difundia a tristeza no esprito
dos que o escutavam.
A moa no concebia que se preferisse Leopoldo a Horcio;
e contudo no podia esquivar-se completamente  influncia
daquela imagem plida, que lhe aparecia no meio dos
sonhos mais brilhantes
Muitas vezes, depois de algumas horas agradveis passadas
junto do leo, quando a moa, recolhida  sua alcova,
repassava na memria os doces protestos de amor que
ainda lhe ressoavam ao ouvido, de repente surgia a
lembrana de Leopoldo. Parecia-lhe ento que da fronte do
mancebo se desprendia uma sombra para anuviar seus
pensamentos risonhos.
Horcio, sabendo onde Amlia passava as noites em que ele
a no via, mostrara desejos de freqentar a casa de D.
Clementina; a moa porm ops-se. Duas razoes atuaram
em seu esprito.
Aquela casa servia-lhe de abrigo contra a seduo que
exercia em seu esprito a elegncia de Horcio. Quando
sentia-se vencida, fugia para ali, onde recobrava foras para
resistir de domar completamente o leo, soberbo de suas
conquistas passadas.
Era essa uma das razoes; a outra era o receio de achar-se
em face dos dois moos, repartida entre a seduo de um e
54
a fascinao do outro. Pressentia que desse conflito,
resultaria alguma coisa, que ela no podia definir, mas que
a enchia de sustos e inquietaes.
Por isso exigiu de Horcio que no fosse  casa de D.
Clementina:
-- Costumam l ir algumas dessas pessoas que se ocupam
em inventar novidades Sua apresentao, Sr. Horcio, daria
pretexto a algum romance.
-- Mas por que ainda freqenta semelhante casa?
-- Pedidos... bem sabe; nem sempre uma pessoa se pode
recusar. Mas se o senhor aparecer l, eu deixarei de ir.
-- Esteja tranqila.
Amlia continuou a passar de vez em quando uma noite em
casa de D Clementina. A princpio no tinha dia certo, e
sucedeu por isso que Leopoldo desencontrou-se dela duas
vezes. Uma noite porm o moo perguntou-lhe:
-- Vem sbado?
-- Talvez.
Desde ento o dia escolhido era o sbado, a menos que no
precedesse aviso especial da dona da casa para alguma
partida. Nunca mais houve desencontro; Amlia achava
sempre o mancebo no seu posto, defronte da porta para vla
entrar.
Em uma dessa noites deu-se um incidente que  preciso
referir.
Falava-se a respeito de uma senhora casada, a quem o
marido causava srios desgostos. Pessoa que sabia das
particularidades dessa famlia explicava o fato  sua
maneira.
-- Ela era muito linda, o marido a adorava; casou-se por
paixo. Poucos dias depois de casada, teve ela uma grave
molstia que a reduziu quele estado. No h paixo que
resista!
55
-- Com efeito, sabe ser feia!
-- Ningum acreditar que foi bonita.
-- Pois foi uma beleza.
Leopoldo, que ouvia calado, interveio:
-- O marido nunca a amou!
-- Asseguro-lhe que teve uma paixo louca.
-- E eu afirmo-lhe que no; que ele nunca teve paixo pela
mulher. O que ele adorava era unicamente a sua beleza, a
forma; isto , um acidente. O homem que ama a mulher
destinada a ser companheira de sua existncia, o
complemento de seu ser imperfeito, no despreza essa
mulher, porque a desgraa a feriu no invlucro material de
sua alma. Ele pode sofrer com aquela desgraa; mas deve
redobrar de amor e adorao, para que nem seus olhos
vejam o defeito, nem ela, a mulher amada, se lembre nunca
de que o tem para ele, embora o tenha bem claro para os
indiferentes.
--  bonito de dizer! acudiu um apreciador das mulheres
formosas.
-- Todos dizem o mesmo, mas fogem das feias, observou
uma senhora idosa, talvez por experincia prpria.
-- O que eu digo, minha senhora, j o experimentei em mim
mesmo, replicou Leopoldo.
-- Ah!
O mancebo cravou em Amlia um olhar eloqente, e disse
com a palavra lenta e calma:
--  verdade; j o experimentei em mim. Por que hei de
ocult-lo? Minha alma j passou por esta dura prova, e saiu
triunfante. Hoje sei que tenho foras para amar at os
defeitos da mulher que Deus me destinou.
Amlia perturbou-se com aquelas palavras, e o olhar
ardente que parecia grav-las em sua alma. Nessa noite
56
retirou-se pensativa; e por muito tempo a figura plida de
Leopoldo esvoaou na penumbra de seu leito de virgem.
X
Pela manh se dissiparam essas nvoas que no esprito de
Amlia deixara a noite antecedente.
Era domingo. A moa, envolta em seu roupo alvo, com os
cabelos soltos pelas espduas, encostou o rosto  vidraa da
janela. Afastando a cortina de cassa branca, podia enxergar
perfeitamente a rua, sem que de fora vissem o seu gracioso
desalinho.
No tardou que se ouvisse um tropel de cavalo. Era o leo
que ia dar seu passeio matutino. Vendo agitar-se a cortina,
e desenhar-se no vidro a ponta de uns dedos cor-de-rosa,
Horcio cortejou enviando um sorriso  janela.
 noite o moo dirigiu-se  casa do Sales; Amlia o
esperava. A sala estava cheia de visitas. Entrando, o olhar
de Horcio encontrou um olhar terno que o saudava de
longe.
Mas o sorriso se desfez com a perturbao que de repente
sentiu a moa. A vista do leo tinha descido at o tapete, e
se fixara com uma insistncia visvel na fmbria do vestido,
ligeiramente arregaada. Horcio julgou que pudesse
lobrigar a ponta do pezinho que idolatrava.
A moa concertou as dobras da saia de modo a interceptar o
olhar curioso; e disfarou conversando com uma amiga.
Desde princpio notara Amlia aquele sestro de Horcio.
Quando ela o supunha mais embebido em seus encantos,
mais rendido  sua beleza, surpreendia o olhar do moo a
rastejar pelo cho, procurando insinuar-se por baixo da orla
de seu vestido.
Muitas vezes ela perdia os seus mais ternos sorrisos, porque
o moo, em vez de procurar-lhe no rosto a esperana de ser
amado, esquecia-se a catar sobre o tapete alguma idia que
no se animava a revelar. J tinha sucedido, durante que
57
ela tocava, distrair-se o leo, e com a ateno presa no
pedal, nem ouvir a pea de msica.
Horcio a amava sem dvida; j lhe tinha dado provas de
que sentia por ela uma paixo veemente. Ele, o rei da
moda, o festejado conquistador, para quem todas as portas
e todos os coraes abriam-se como a gruta encantada de
Aladino, a uma s palavra; ele ali estava cativo da vontade
dela, e atado ao seu carro triunfal. Que prova mais
eloqente de profundo amor, do que essa submisso
espontnea do altivo leo?
A fora nunca se revela tanto como na posse de si mesma,
no vigor com que se domina. Hrcules, fiando aos ps de
Onfale,  o ltimo canto, o eplogo sublime da epopia da
forca humana. Exterminando a fera, a natureza e at os
deuses, Hrcules foi grande; abatendo a si mesmo, foi
maior, porque venceu o vencedor.
Amlia compreendia que homenagem eloqente  sua
beleza havia naquela adorao do elegante cavalheiro;
sentia-se orgulhosa com esse amor, que tantas mulheres
lhe invejavam; considerava-se rainha, desde que via a seus
ps subjugado e humilde o rei da moda.
Mas l no ntimo alguma coisa lhe remordia quando notava
a pertincia com que o olhar de Horcio procurava a fmbria
de seu vestido. Nesses momentos sentia n'alma um
alvoroo; chegava a suspeitar que Horcio no lhe tinha
amor, e estava escarnecendo dela com uma paixo fingida.
A verdade, porm,  a que sabemos. Horcio tinha paixo
louca pelo pezinho de que s conhecia a botina e o rasto;
fazendo a corte a Amlia, ele prestava culto ao deus ignoto,
que adorava sob aquela forma encantadora. Pelo cuidado
que tinha a moa em no desconcertar os babados de seu
vestido comprido demais, conheceu ele o zelo com que a
dona recatava o tesouro. Contudo no desesperou; o
cuidado da moa havia de adormecer um momento; podia
mesmo sobrevir um acidente inesperado que realizasse a
sua mais cara esperana.
At aquela noite todos os esforos se tinham frustrado; 
sua insistncia a moa tinha oposto a pertincia do capricho
58
feminino. Quanto mais atento ele estava para aproveitar
qualquer descuido, mais alerta ela ficava para no cometer
a mnima falta.
Horcio porm resolveu dar o golpe; e com essa inteno,
fora  casa de Sales, no domingo em que estamos.
Quando se ofereceu ocasio, travou com Amlia, recostada
 janela, o seguinte dilogo:
-- Como  bonita! disse ele contemplando a moa com
enlevo.
-- Ainda no tinha percebido? perguntou ela com irnica
faceirice.
-- No, D. Amlia, no; porque de cada vez a acho mais
bonita; todos os dias a senhora muda a meus olhos; tornase
outra, mais linda, mais formosa, do que era aquela que
eu conhecia anteriormente. Como hoje, acredite, nunca a vi.
-- Que tenho eu demais?
-- No sei; tem uma aurola de beleza! Seus olhos desferem
raios de luz to pura; sua boca sorri como a flor em boto,
que abriu com a frescura da noite. Os anis de seus cabelos
castanhos parecem impregnados de um fluido misterioso,
que se derrama em torno. Mas de toda a sua formosura h
uma coisa sobretudo que eu admiro, que eu adoro. No ,
nem seus olhos brilhantes, nem seus lbios mimosos, nem
seu talhe elegante, nem suas tranas to opulentas; no 
nada disto!
-- O que  ento?
-- Para que diz-lo? Para que revelar a minha paixo a
quem dela escarnece? Se eu o confessasse, cessariam o
suplcio que tenho sofrido, as nsias que estou curtindo?
No; haviam de aumentar se isso fosse possvel. A senhora
teria prazer em torturar-me ainda mais.
-- Explique-se: confesso que no o entendo. Que suplcio
tem o senhor sofrido?
59
-- A mulher  caprichosa, muitas vezes faz padecer aquele
que a ama sinceramente, e s por esprito de contradio.
Uma coisa inocente, um favor pequenino... permite aos
estranhos e indiferentes, e entretanto recusa ao homem que
morre de paixo por ela. No  uma crueldade? A senhora
pergunta, D. Amlia, que suplcio tenho eu sofrido. Este, de
ser consumido a fogo lento por um desejo, que um gesto
seu podia tornar em gozo infinito!
A moa, com as faces incendidas em rubor, lutava no
alvoroo e confuso, que iam se apoderando de toda sua
pessoa.
-- Entende agora, D. Amlia?
-- No! murmurou trmula.
-- Pois no percebeu ainda, que h uma coisa que eu
sobretudo amo na senhora? Tanto percebeu, que fez o
propsito de escond-la a meus olhos, cansados de a
procurarem a cada instante. No est contente ainda de
ver-me arrastando assim a alma pelo p, no vo intento de
entrever de longe o objeto de minhas adoraes?
O leo fitou um olhar fascinador no semblante da moa.
-- Para que negar, D. Amlia? A senhora o sabe, e finge
ignorar para mais torturar-me.
-- Eu, no!
-- A senhora sabe por quem deliro de paixo, por quem
darei a minha vida sem hesitar. Se no soubesse, j eu teria
visto e admirado esse pezinho mimoso, que me mata com
seu rigor.
Uma visita que entrava na sala, deu a Amlia um pretexto
para fugir, disfarando seu rubor e perturbao, no af da
recepo das senhoras que chegavam.
Ao retirar-se, Horcio achou ensejo de trocar uma palavra
com a moa, enquanto lhe apertava a mo:
-- No seja cruel!
60
-- Oh! cruel no sou eu, replicou a moa com expresso de
ressentimento.
Mais tarde, em sua alcova, enquanto desfazia o penteado,
soltando os lindos anis do cabelo castanho, Amlia
recordou-se das palavras apaixonadas que ouvira de
Leopoldo na vspera, e comparou-as com as queixas de
Horcio. A linguagem do primeiro tinha a eloqncia da
paixo; parecia vir do ntimo, do mais profundo do corao.
A linguagem do segundo tinha a graa da seduo: era a
vibrao passageira das cordas d'alma.
Mas a palavra do leo vinha envolta em um sorriso gracioso,
sombreado por um bigode fino e elegante!
Durante uma semana, Amlia no viu Horcio, por uma
razo muito simples. O moo, de arrufado, no apareceu
durante dois dias; quando se resolveu a aparecer, a moa
despeitada inventou um incmodo, e no desceu  sala de
visita, pelo dobro do tempo. Se Horcio sustentasse a luta,
podia haver srio rompimento.
O leo porm estava domado; tinha achado a sua Diana. No
quinto dia foi humildemente render preito e homenagem 
suserana de seu corao. Amlia o recebeu como rainha
magnnima; e tratou-o nesse dia com amabilidade extrema.
Pela primeira vez, Horcio pde beijar-lhe a ponta dos
dedos.
Animado com esse acolhimento, o leo arriscou de novo a
grande questo. Fitando o olhar no rosto da moa e
abaixando-o  orla do vestido, disse em tom suplicante:
-- Me deixa ver?
-- No, respondeu a moa com vivacidade, e demudandose:
-- Quando cessar este capricho?
-- Nunca.
Horcio teve um assomo de impacincia.
61
-- Bem. No me quer mostrar a mim, Horcio de Almeida;
pois h de mostr-lo a uma pessoa.
-- A quem? perguntou a moa irritada.
-- A seu marido.
Amlia tornou-se plida, e sentiu passar-lhe nos olhos uma
vertigem; mas recobrou-se logo  idia de que as palavras
de Horcio no passavam de um galanteio.
-- Se algum dia me casar, replicou ela sorrindo, h de ser
com a condio de no mostrar.
-- Havemos de discutir essa condio.
-- Vamos mudar de conversa?
-- Como quiser; temos muito tempo para continu-la.
Enquanto Amlia o olhava surpresa, Horcio voltando-se
para o grupo das senhoras, tomou parte na conversao
geral.
-- J sabem a novidade, minhas senhoras?
-- Qual delas? H tantas.
-- A novidade nova, a ultimamente inventada, que eu acabo
de receber em primeira mo, de caminho para aqui.
-- Algum casamento, aposto.
-- E eu sei de quem.
-- No adivinhou. Talvez que a novidade de amanh seja
algum casamento; quem sabe? respondeu Horcio,
relanceando um olhar para Amlia. Mas a novidade de hoje,
 apenas um baile, um baile, um baile de estrondo.
-- Aonde?
-- No Cassino?
-- No clube?
62
-- Em casa de Azevedo.
--  verdade! Eu j tinha ouvido dizer!
-- Quer a senhora fazer de velha a minha novidade. O que
se dizia era que o Azevedo tinha teno de dar um baile,
mas disso  realizao vai uma grande distncia. Eu desejo
muita coisa que no alcano, e nem ao menos posso ver. Foi
hoje e ao jantar que resolveu-se a grande questo, por
ocasio de uma sade. Um amigo que vinha de l,
encontrando-me a dois passos daqui, me deu a notcia do
grande acontecimento. Portanto, minhas senhoras,
preparem-se!
-- Quando  o dia?
-- No primeiro do ms prximo. Ponham desde j em
contribuio as lojas e modistas; eu, o que posso, 
oferecer-me com muito gosto para admir-las a todas, e
achar a cada uma de per si mais elegante do que as outras
juntas. Se Pris me tivesse ouvido, no haveria guerra de
Tria.
-- Nem Homero por conseguinte, replicou um literato.
-- Homeros sempre os h. Quando no encontram os heris
j feitos, inventam-nos, e com tal habilidade, que esses
grandes homens postios parecem verdadeiros, como os
dentes de osana, e os coques das moas. O mesmo sucede
com os Anacreontes, cuja raa  muito maior; quando no
acham ninfas para cantar, qualquer bruxa lhes serve de
pretexto ou de cabide para pendurarem a lira.
Amlia ficara triste e preocupada; escutava a palavra
volvel do moo com um sentimento indefinvel de angstia;
parecia-lhe que era seu amor por ela, que Horcio rasgava
aos pedacinhos, como uma pgina querida, abandonando-os
ao sopro do vento, ao capricho daquela conversa.
Uma amiga reparando na tristeza da filha de Sales e no
olhar que em certa ocasio lhe deitara Horcio, disse ao
ouvido da moa sentada a seu lado:
-- Amlia ficou lograda!
63
-- Como?
-- Creio que Horcio est justo com outra.
-- Quem lhe disse?
-- A tristeza de Amlia, e o olhar que o sujeito lhe deitou,
quando falava de um casamento que se h de saber
amanh.
--  verdade. Com quem ser?
-- Naturalmente com alguma fazendeira de mil contos.
Depois que sarem da igreja, o marido leva-a para o colgio
do Hitchings; e deixa-a l como pensionista, enquanto ele
vai a Paris aperfeioar-se na escola dos maridos.
"Esta senhora  uma stira viva; sua conversa parece um
fogo de artifcio; dir-se-ia que o seu gracioso traje  todo
composto de alfinetes, que ela vai deixando em sua
passagem envoltos em sorrisos aucarados, como confeitos
de carnaval.
"Oculto seu nome porque  muito conhecida na boa
sociedade do Rio de Janeiro, e no quero compromet-la
com os noivos presentes e futuros das fazendeiras ricas."
Depois de ter durante alguns instantes ainda polvilhado a
conversa com sua palavra elegante e chistosa, Horcio
tomou o chapu e retirou-se. No eram nove horas; esta
circunstncia mais entristeceu Amlia, e mais excitou a
ateno da moa maliciosa.
 porta da casa de Sales encontrou Horcio seu tlburi.
Mandou o cocheiro esper-lo no Largo do Machado, e ele,
tendo acendido o charuto e vestido o sobretudo, seguiu a
p. Queria pensar.
Horcio pertencia  escola daqueles que entendem, que
nunca  tarde para arrepender-se o homem de um
compromisso. Ele compreendia o alea jacta est por esta
forma prudente e razovel. Csar, tendo lanado a ponte
sobre o Rubico, via de longe em Roma a ditadura, e mais
tarde a prpura imperial, portanto fez ele muito bem em
64
passar, sobretudo desde que o rio j no opunha obstculo.
Mas se em vez do poder, Csar encontrasse no caminho a
derrota, a ponte lanada lhe serviria para voltar s Glias, e
ele teria o cuidado de queim-la depois que tornasse a
passar.
Como Csar, ele tinha lanado a ponte com aquela palavra
dita a Amlia, em um momento de despeito. Devia porm
passar o Rubico do casamento?
Era sobre to importante questo que o leo queria refletir,
fazendo a p o trajeto entre as Laranjeiras e o Largo do
Machado.
-- O casamento  o suplcio de Prometeu, pensava ele; um
homem atado ao rochedo da famlia, com o corao
devorado pelo tdio; uma criatura dividida em duas
metades, que se contrariam a cada instante, porque esto
ligadas. Em vez do romance, do idlio, do drama, a prosa
montona de uma histria que se l todos os dias. Esse
prazer incomparvel de sentir-se todo dentro de si, de
resumir-se no seu nico eu, de dispor livremente de sua
pessoa e vida, no o tem o marido a menos que seja um
biltre. O casamento dilata a superfcie da alma; em vez de
sofrer-se no seu corao apenas, sofre-se na mulher, no
filho, e em cada um dos fios dessa grande teia humana que
se chama famlia.
Horcio recordou-se de alguns de seus amigos que haviam
casado, e achou nessas reminiscncias a prova de sua
opinio.
-- O casamento  tudo isso; mas que importa, desde que
no h outro meio de realizar o meu desejo e satisfazer esta
paixo ardente e impetuosa? Daria a vida inteira, e sem
hesitar, pela felicidade que eu sonho. Pois se eu a daria de
uma vez, por que no a emprestarei sob hipoteca?
Tendo chegado ao Largo do Machado, o moo entrou no
tlburi, que o conduziu a casa.
A, contemplando a mimosa botina, guardada como uma
relquia encheu-se cada vez mais da resoluo que havia
tomado.
65
XI
Eram onze horas da manh.
Amlia estudava ao piano os exerccios de Herz. As janelas
cerradas deixavam entrar frouxa claridade, coada pela cassa
transparente das cortinas
Nesse crepsculo artificial a beleza da moa tomava uns
tons suaves e meigos, que mais seduziam.
Os lindos cabelos, ainda midos do banho, cobriam-lhe as
espduas de uma tnica de veludo castanho. O baj de
cassa que trazia no seu desalinho matutino, conchegado 
ctis, coloria-se com os reflexos rosados do colo mimoso.
Tanta graa e formosura, realadas pela singeleza do traje e
pela naturalidade da posio, ficavam ali ocultas na doce
penumbra da sala e recatadas  admirao. s duas horas
Amlia costumava subir  sua alcova para se pentear; e o
gracioso desalinho desaparecia, substitudo por um traje
mais apurado e elegante. Era a flor singela que o vento
desfolha na mata e passa efmera e desconhecida.
Tantas moas despendem um avultado cabedal de sorrisos,
de olhares e gestos, e pem em contribuio a seda, a
renda e a moda para realarem sua formosura! Mal sabem,
entretanto, que nunca so elas to bonitas e feiticeiras
como um certo momento de sedutora negligncia, quando
parece que a beleza desabrocha de seu gracioso boto.
A porta da sala abriu-se e deu entrada ao Sr. Sales Pereira.
O aspecto do negociante era grave; mas da gravidade
serena que anuncia uma preocupao agradvel. Trazia na
mo uma carta aberta.
Amlia assustou-se vendo entrar na sala o pai, que ela
supunha na cidade. Como todos os negociantes, o Sr. Sales
Pereira passava a manh em seu escritrio; partia logo
depois do almoo e s voltava  hora do jantar A surpresa
da moa era pois natural.
66
-- Ah! papai! exclamara ela, voltando-se ao rumor da porta.
J veio do escritrio?
-- Ainda no fui, respondeu Sales Pereira sorrindo. Recebi
uma carta, que me obrigou a demorar-me at agora para
conversar com tua me e... contigo, a quem o objeto mais
interessa.
-- A mim? O que ser, papai? Algum convite de baile?
-- L, disse o negociante apresentando-lhe a carta.
Amlia correu os olhos pelo papel, e seu rosto cobriu-se de
vivos rubores. O corao palpitava-lhe com tanta fora que
debuxava no linho o contorno dos lindos seios.
A carta era de Horcio, que pedia ao negociante a mo da
filha.
Acabando de a ler, a moa de olhos baixos e o corpo
trmulo, parecia vendar-se com sua inocncia para subtrairse
ao olhar terno e curioso de seu pai. Nesse momento ela
desejava, se possvel fosse, esconder-se dentro de si
mesma.
-- Que devo eu responder, Amlia? perguntou o negociante.
-- O que papai quiser! balbuciou a menina.
-- Ests bem certa de que meu desejo  o teu? Se eu no
aceitar a honra que nos quer fazer o Sr. Horcio de
Almeida?
As plpebras da moa ergueram-se, desvendando seus
olhos lmpidos. -- Papai no acha bom?
-- Se ele te for indiferente, eu por mim no tenho grande
empenho.  um excelente moo; tem alguma coisa de seu;
mas anda em certa roda que no me agrada.
-- Que roda, papai?
-- De moos da moda.
-- Porque  solteiro.
67
-- Ento o que decides?
-- Desde que papai e mame desejam, eu...
-- Ns no desejamos coisa alguma; queremos saber tua
vontade.
Amlia emudeceu.
-- Bem, j vejo que no  de teu gosto. Vou responder ao
homem com um no.
Sales Pereira encaminhou-se para a porta.
-- Mas, papai!... murmurou a moa.
-- Que temos?... Fala, que j me demorei muito. Quase
meio-dia!
-- Vai responder j?
- J.
-- Deixe para amanh.
-- Nada; so coisas que se decidem logo.
-- O que vai responder ento?
-- Que no.
-- Mas eu no disse isto!
-- Tu nada disseste.
-- Pois se eu no gostasse, diria logo.
-- Ah! neste caso, gostou?
Amlia sorrindo acenou com a cabea.
-- No entendo esta linguagem. Vamos a saber. Amas a
Horcio?
A moa fez um supremo esforo:
68
-- Amo! disse ela escondendo o rosto no seio do pai.
O negociante beijou-a na fronte com ternura e carinho.
-- Ah! minha sonsa, no queria confessar o que tinha aqui
dentro deste coraozinho! E eu que pensava que ele s
queria bem a mim?
-- Oh! papai!
-- Bem, bem, no tenho cimes! Vai consolar tua me, que
eu vou responder ao homem mais feliz deste Rio de Janeiro.
O negociante voltou ao gabinete, e Amlia dirigiu-se ao
interior. Sua me estava no quarto, com os olhos ainda
midos de lgrimas. Quem no conhece essas lgrimas
abenoadas, que a me derrama pelos filhos, e que so
blsamos para as aflies e orvalhos para as flores da
ventura?
D. Leonor beijou a filha e estreitou-a ao seio como receosa
de que lha arrancassem dos braos. Seu corao ora
alegrava-se com a felicidade prxima da moa, ora se
entristecia com a lembrana da separao.
De repente Amlia sobressaltou-se com uma idia que lhe
acudiu; e deixando a me, correu ao gabinete do
negociante. Achou-o sentado  escrivaninha, passando por
cima da carta que terminara, um rolete de mata-borro.
O pai sorriu vendo entrar a filha.
-- Curiosa!
-- J acabou? disse a moa recostando-se com gentileza 
poltrona.
-- V se est de teu gosto, disse o Sales cingindo-lhe a
cintura com o brao.
Amlia leu a carta rapidamente; ela j sabia de antemo
que faltava alguma coisa.
-- Ento, que tal? perguntou o negociante com certo
desvanecimento.
69
-- Est muito boa, papai. S acho uma coisa.
-- O qu?
O negociante sofreu uma decepo. Pensava ter feito uma
obra-prima com aquela carta, escrita em seu mais belo
estilo comercial, mas recheada de alguns rasgos
sentimentais.
-- No acha, papai, que ele ficar todo cheio de si, obtendo
logo, assim com tanta facilidade, o que deseja? A carta  de
hoje; responder no mesmo dia... mostra muita vontade
demais.
-- Que mal h nisso? Para que deix-lo na dvida, quando
podes torn-lo feliz desde j?
-- Papai pensa que ele duvida?
-- Ah! J sabe ento! Muito bem!
-- Eu no lhe disse nada, papai.
-- Ento como sabe ele? Adivinhou?
-- No adivinhou nada. Papai bem sabe como so esses
senhores da moda; cuidam que todas as moas andam
morrendo por eles, e que a dificuldade est somente em
escolher. Como eu no quero que o Sr. Horcio me julgue
uma de suas conquistas, estou resolvida, papai, a pensar
bem durante quinze dias, antes de dar a resposta.
-- Portanto esta carta no serve, disse o Sales com um
suspiro.
-- H de servir, mas daqui a quinze dias. Agora papai deve
dizer unicamente, que tendo-me consultado, eu pedi algum
tempo para dar a resposta.
O negociante escreveu, e Amlia esperou at que partiu a
carta, confiada a um criado.
Momentos depois, Sales saa para a cidade, e Amlia
entrava em sua alcova, descantando trechos de rias e
romances. No se podia dizer que estivesse alegre, apesar
70
do tom garrido com que modulava, e do fresco riso que
trinava em seus lbios.
O que ela sentia era um alvoroo ntimo, uma sfrega
agitao, estado indefinvel d'alma prurida por mil desejos e
contida por mil receios.
Vejamos se  possvel descobrir o que passava ali, dentro
daquele seio mimoso.
Desvanecida a primeira comoo produzida pela carta de
Horcio, Amlia recordara-se do que tinha ocorrido na
vspera, e sobretudo das palavras proferidas pelo moo.
Sua vaidade revoltou-se como era natural.
-- Hei de mostrar-lhe que no basta querer, para ser meu
marido; e que no basta ser meu marido para ver...
Foi ento que se dirigiu ao gabinete do pai e adiou a
resposta definitiva. Voltando, sentiu l num cantinho do
corao uns receios que estavam nascendo. No fosse
Horcio zangar-se com a demoras e retirar o pedido? Quinze
dias talvez fossem demais.
Eis qual era o estado de animo de Amlia: orgulho de ver
subjugado a seus ps o rei da moda; prazer de o ter cativo
de uma palavra sua durante muitos dias; arrependimento do
que fizera; susto do que podia acontecer; gozo da ventura
que sorria; tais foram os sentimentos desencontrados que
vibraram na alma da moa.
Nessa tarde Amlia preparou-se com maior esmero do que
se fosse a um baile. Seu adorno simples, um modesto
vestido branco com fitas azuis, tomou-lhe mais tempo, do
que no levaria a compor um traje suntuoso.
Ela esperava Horcio.
Toda a noite passou, indo do sof  janela, e da janela ao
consolo, onde estava a pndula de alabastro.
As horas se escoaram, sem que o tlburi do moo parasse 
porta do negociante.
71
No dia seguinte, Amlia perguntou ao criado se a carta fora
entregue a Horcio
-- Entreguei em mo, quando entrava no tlburi.
-- E que disse ele?
-- Nada; leu e riu-se.
-- Ah! ele riu-se, murmurou Amlia consigo. Pois eu lhe
mostrarei.
Desde ento, empenhada sua vaidade, os sustos se
desvaneceram. Estava decidida a no ceder. Horcio depois
de vencido tentava ainda resistir-lhe? Pois havia de subjuglo
completamente.
 noite foi  casa de D. Clementina, onde estava reunida a
roda do costume. Leopoldo ali se achava tambm e
cumprimentou-a com um modo triste e resignado.
Deve existir urna corrente magntica entre os homens, um
fluido que serve de veculo ao pensamento recndito e ainda
no divulgado. No se explicam de outro modo certas
revelaes de um fato somente conhecido de poucas
pessoas e por estas recatado. A emoo, que desperta esse
fato n'alma de alguns, repercute n'alma de outros, e produz
uma espcie de intuio.
Na casa de D. Clementina sabia-se j que Amlia fora
pedida em casamento, embora se ignorasse o nome do
pretendente, talvez por no ser conhecido das pessoas
presentes. Sales Pereira, a mulher e a filha no tinham dito
a menor palavra sobre o objeto da carta de Horcio; mas a
impresso produzida por essa carta, a preocupao que
deixara nas pessoas da famlia, as conversas ntimas e
recatadas, no escaparam aos escravos.
Da gerou-se o boato, que j tinha passado  casa de D.
Clementina.
-- Ah! chegou a Amlia Sales! Sabia que vai casar-se? J foi
pedida, disse uma senhora a Leopoldo.
72
-- No, senhora, no sabia, respondeu o moo com mgoa,
mas sem perturbar-se.
-- Com quem? perguntou outra moa.
-- Com um moo bonito e rico. Disseram-me o nome, mas
j no me lembro.
Nisso Amlia entrou na sala, onde foi muito festejada pelas
amigas e conhecidas.
As aluses e gracejos a respeito do segredo incomodaram a
moa, embora por outro lado lhe causassem certo
desvanecimento.
Pelo meio da noite, Leopoldo aproximou-se de Amlia para
lhe pedir uma contradana. Tinham danado a primeira
marca sem trocar palavra; afinal o mancebo rompeu o
silncio:
--  verdade que foi pedida em casamento?
Amlia empalideceu; quis disfarar iludindo a pergunta, mas
encontrou o olhar de Leopoldo, olhar to doce e sincero, que
no se animou a engan-lo.
--  verdade, murmurou em voz quase imperceptvel. Mas
ainda no respondi.
-- Estimo que seja muito feliz.
-- Obrigada.
Amlia ficou surpresa; ela supunha que Leopoldo tinha-lhe
ardente paixo, e que portanto sentiria profundo pesar,
seno desespero, com a notcia de seu casamento. Em vez
disso, o mancebo mostrava uma resignao serena.
-- Quando comecei a am-la, D. Amlia, disse Leopoldo
depois de alguns instantes, acreditei na felicidade, e esperei
alcan-la neste mundo. Minha alma pressentiu a
aproximao da irm que Deus lhe destinara e cuidou atrala
e embeb-la em seu seio. Mas essa iluso se desvaneceu
logo. Soube qual era sua posio, e compreendi que a
senhora no me podia pertencer. Resignei-me, pois, a amar
73
unicamente sua alma; essa, ningum me pode roubar, nem
mesmo a senhora, porque Deus a fez para mim. Eu estava
desde muito preparado para a notcia de seu casamento; ela
no me surpreendeu, embora me entristecesse. At agora
adorei sua alma, como se adora a imagem da Virgem no
templo; de agora em diante terei de adorar essa alma
querida, como se adora uma santa no sepulcro.
Leopoldo falou por algum tempo ainda, e a moa, que a
princpio se acanhara com a expanso viva desse amor to
puro, bebia as palavras ardentes do mancebo como fluido
que derramava em sua alma suave calor.
Nessa noite, ao recolher-se, ia absorvida neste pensamento:
-- Por que julgou ele impossvel que eu o amasse? Sem
dvida no o amo; mas talvez... Se eu no conhecesse
Horcio... Quem sabe?
Nisto lembrou-se que j se tinham passado dois dias depois
do pedido, e portanto faltavam treze para a deciso.
-- Se ele no vier antes disso? Se no vier... respondo que
no. Est decidido.
XII
Correram os dias sem que Horcio aparecesse em casa do
Sales Pereira. Amlia, apesar de seu esforo, no podia
conter a impacincia. Ela adivinhava que o leo estava
despeitado com a resposta, e queria obrig-la a concederlhe
imediatamente o que pedira: a sua mo, e com a mo o
pezinho que ele adorava.
Por vezes a moa foi at  porta do gabinete do pai, na
inteno de dizer-lhe que escrevesse a Horcio enviando-lhe
o consentimento; mas vol
tava envergonhada de sua fraqueza; enxugava alguma
lgrimas que lhe saltavam dos olhos; e fazia novos
protestos de no ceder.
Nestas ocasies ela contemplava a imagem de Horcio com
alguma severidade. Lembrava-se da volubilidade com que
74
ele falava-lhe de seu amor; do sorriso sempre faceiro que
tinha nos lbios e servia para vestir a palavra alegre ou
triste, zombeteira ou comovida, e finalmente da insistncia
que mostrava em ver-lhe o p.
Ento acudia a Amlia uma circunstncia que a princpio lhe
escapara: fora sua recusa  impertinncia do leo, que o
obrigara a pedi-la em casamento no dia seguinte.
-- Ser apenas um capricho? No me ter ele verdadeiro
amor?... Se no me engano, o que ele ama em mim, no
sou eu, mas uma mulher que imaginou; sirvo-lhe apenas de
pretexto, como tantas outras antes de mim.
O resultado destas observaes era protestar a moa que
daria um no ao pedido de Horcio. Mas quando seu pai lhe
perguntava sorrindo:
-- Ainda no?
Ela corava, abanava a cabea e fugia, dizendo consigo que
ainda faltavam alguns dias para o prazo marcado.
Para ocupar as noites e distrair o esprito dessa constante
preocupao amiudou as visitas  casa de D. Clementina. Ali
com a influio do olhar profundo e da palavra eloqente de
Leopoldo, esquecia as contrariedades e inquietaes. Na
volta trazia algumas doces reminiscncias, e sobretudo um
certo arroubo do corao, que durava algum tempo, e a
preservava de suas anteriores preocupaes.
J haviam passado doze dias depois da carta, e Amlia
estava mais que nunca resolvida a romper com Horcio,
quando se deu entre ambos um encontro.
Foi no teatro.
Amena que a princpio evitou as ocasies de encontrar-se
com Horcio, lembrou-se que sua presena podia provoclo,
e obteve do pai que a levasse ao espetculo. Subindo a
escada do Teatro Lrico, avistou Horcio que vinha do lado
oposto.
75
Apesar de estar prevenida, a moa teve um sobressalto;
mas pde recobrar-se antes que o leo se apercebesse de
sua presena. Foi com fria altivez e indiferena que ela
correspondeu ao cumprimento de Horcio, sem demorar o
passo enquanto ele trocava um aperto de mo com o Sales
Pereira.
Esta indiferena porm, e sobretudo o gesto que Amlia fez
para arregaar o vestido quando subia o segundo lano de
escada, ataram de novo o leo ao jugo.
-- Desta vez, pensou ele, se eu estivesse adiante, via ao
menos a ponta do meu pezinho!
Teria Amlia simulado aquele gesto de propsito?  natural;
ela queria subjugar outra vez o cativo que escapara; usava
de todos os seus recursos.
Vencido, o moo acompanhou a famlia at  porta do
camarote e demorou-se a a conversar com o negociante.
Entretanto Amlia, sem dar-lhe a mnima ateno, percorria
com o binculo os camarotes trocando com a me
observaes a respeito das moas e seus lindos adereos.
Durante o resto da noite, a moa mostrou a mesma
calculada indiferena, a ponto de irritar o mancebo. Apesar
de se ter rendido, sentiu ele um mpeto de revolta, e deixou
sua cadeira junto  orquestra com inteno de visitar um
camarote fronteiro ao do Sales Pereira. L estava uma linda
moa de seu conhecimento, uma das estrelas de sua coroa
de rei da moda.
Sentar-se-ia junto dela, e estabeleceria um dilogo
entretecido de sorrisos, de olhares e meias confidncias
como por ai se do tantos nos bailes e espetculos:
verdadeira cena mmica de amor representada perante o
pblico. Com esse entretenimento, Horcio comprometeria
seriamente a reputao de uma senhora; mas vingar-se-ia
de Amlia, excitando-lhe cimes.
Chegava j o leo  porta do camarote quando ocorreu-lhe
este pensamento:
76
Faltava apenas um ato para terminar o espetculo; se ele
mostrasse afastamento, Amlia irritada persistiria em seu
desdm durante o resto da noite; e quem sabe que
resoluo tomaria sob a influncia desse despeito?
Horcio teve medo e recuou. J se tinha submetido no
comeo da noite; o melhor expediente era perseverar.
Naturalmente Amlia, no fim do espetculo, abrandaria o
seu rigor.
Comeara o ato. Horcio deixou passar algum tempo, e
dirigiu-se ao camarote de Amlia. A moa que j tinha
reparado na ausncia do leo, cuja cadeira estava
desocupada, adivinhou-lhe a presena, ouvindo abrir-se a
porta. Seu primeiro movimento foi voltar o rosto; mas
reprimiu-se a tempo, e disfarou dirigindo o binculo para o
fundo da sala.
Apesar do imprio que tinha sobre si, Amlia estava ao cabo
das foras. Se naquele momento Horcio fingisse uma
retirada, ela no resistiria. Felizmente o leo no se
lembrava disso e tinha resolvido esperar a sada para trocar
algumas palavras com a moa.
Terminou o espetculo afinal. Horcio ofereceu o brao a
Amlia:
-- Muito lhe ofendi com meu pedido, D. Amlia?
A moa calou-se.
-- No lhe mereo nem uma palavra?
-- Parece que o senhor lhe d bem pouco apreo.
-- Que injustia!
-- Quem passou tantos dias sem ela pode bem esperar
ainda os dois que faltam.
-- Ento sou eu o culpado dessa demora! Quem me
condenou a ela?
77
-- E o senhor nem ao menos procurou abrevi-la: achou
mais cmodo esperar tranqilamente! Pois continue a
esperar.
-- Mas, D. Amlia! Depois da resposta de seu pai, se eu me
apresentasse em sua casa, tornar-me-ia importuno. Cuida
que no sofri, passando tantos dias sem v-la? Ingrata!
Quantas vezes, no podendo resistir, fui at  porta de sua
casa, e passei, impelido pelo receio de indisp-la contra
mim? Se ela me amasse, pensava eu, teria aceitado logo:
no o fez; quer refletir; devo deix-la tranqila e respeitar a
sua resoluo. Que vou eu l fazer? Obrig-la a me
aborrecer.
Horcio mentia; ele se ausentara da casa do Sales Pereira,
somente para vencer a resistncia da moa por uma
simulada indiferena.
O carro do negociante aproximou-se:
-- Vai sem me deixar uma esperana?
-- No  aqui o lugar de pedi-la.
-- Ento amanh?
-- Se quiser!
No dia seguinte  noite o leo estava em casa do
negociante. Amlia o recebera com um resto de
ressentimento, que se desfez com os primeiros galanteios.
Sucedeu o que era natural: depois de uma abstinncia de
tantos dias, esses coraes tinham a sede de ternura, e
beberam um no outro a largos sorvos.
Quando o leo se retirou, ele sabia que dois dias depois
receberia oficialmente, por uma carta do negociante, o sim
que ouvira naquela noite entre um sorriso e um rubor.
Quanto a Amlia, depois que a ausncia do moo rompeu o
encanto e deixou-lhe unicamente a conscincia do
compromisso tomado, lembrou-se involuntariamente de
Leopoldo, cuja imagem plida e triste desenhou-se em sua
imaginao.
78
-- Ele h de sofrer muito! pensou a moa suspirando.
No dia seguinte havia reunio em casa de D. Clementina.
Amlia recordou-se disso e fez teno de ir. Naquele
momento julgou-se obrigada a comunicar sua ltima
resoluo a Leopoldo. Pareceu-lhe que seria uma
deslealdade deix-lo na ignorncia de seu casamento, at
que viesse a sab-lo por algum estranho.
Mais tarde surgiram os escrpulos. Tendo aceitado a mo de
Horcio, no era bonito animar uma afeio, que deixava de
ser inocente. Embora nunca retribusse a paixo de
Leopoldo, podiam supor que no a repelias Demais, sendo
natural que Horcio fosse passar a noite em sua casa, ela
procederia muito mal, trocando sua companhia pela de um
rival.
Enquanto as horas do dia se escoavam, estas e outras
razoes disputavam no esprito da moa a deciso que ela
devia tomar. Afinal interveio o corao.
-- Tenho pena dele!
E s oito horas estava em casa de D. Clementina. Nessa
noite a moa, cujo esprito jovial simpatizava com as cores
frescas e risonhas, escolheu um vesturio sombrio. Era uma
faceirice melanclica. Aquela menina de 18 anos, que na
vspera, muito espontaneamente se prometera a um
homem elegante de seu gosto e escolha, afigurava-se agora
uma vtima do dever, sacrificando-se heroicamente ao
compromisso contrado.
Essa convico dominava Amlia ao entrar na sala, e
ressumbrava no s nas fitas pretas de seu traje, como na
languida flexo da fronte e no olhar cheio de mgoas. Ela se
julgava sinceramente coagida por uma fora irresistvel, que
a arrancava a um amor profundo e santo, como a flor que o
vento arrebata ao tronco onde se enlaara.
Leopoldo compreendeu a melancolia de Amlia, e adivinhou
que essa mulher estava perdida para ele no mundo, mas
que sua essncia divina lhe pertencia, para todo o sempre.
Sentiu pois a mgoa da saudade, que precede a longa
79
ausncia. Quando se tornariam a encontrar as duas metades
dessa alma, separadas por uma contingncia da matria?
Pela noite adiante Leopoldo aproximou-se de Amlia, porm
s lhe falou de coisas indiferentes, ao contrrio do que ela
esperava. Se o moo a interrogasse a respeito do
casamento, aproveitaria o momento para confessar-lhe;
mas ele nem de leve tocou nesse ponto.
Na ocasio de se despedirem a moa fez um esforo.
-- J sabe? perguntou com voz trmula e quase
imperceptvel.
-- Adivinhei! disse o mancebo fitando nela os olhos tristes.
Amlia ficou um instante indecisa, em face dele, como se
esperasse mais alguma palavra; Leopoldo dissera tudo
naquele olhar, em que difundira sua alma.
-- Adeus! murmurou a moa afinal.
XIII
A casa nobre de Azevedo resplandecia. A melhor sociedade
da corte concorrera ao suntuoso baile.
Toda a aristocracia, a beleza, o talento, a riqueza, a posio
e at a decrpita fidalguia, estavam dignamente
representadas nas ricas e vastas salas, adereadas com luxo
e elegncia: duas coisas que nem sempre se encontram
reunidas.
Eram nove horas. Ainda o baile no comeara, e notava-se
na reunio a gravidade solene, o grande ar de cerimnia,
que serve de prlogo
s festas esplndidas. Os cavalheiros percorriam lentamente
as salas, observando o ris deslumbrante que formavam os
lindos vestidos das senhoras; mas admirando especialmente
as estrelas que brilhavam nessa via-lctea.
Amlia acabava de sentar-se.
80
Horcio foi logo saud-la, e cumprimentou-a pelo bom gosto
e delicadeza de seu traje.
Realmente no se podia imaginar um adorno mais gracioso.
O vestido era de escumilha rubescente, formando regaos
onde brilhavam aljfares de cristal; nos cabelos castanhos
trazia uma grinalda de pequenos botes de rosa, borrifados
de gotas de orvalho.
Um poeta diria que a moa tinha cortado seu traje das finas
gazas da manh; ou que a aurora vestindo as nvoas
rosadas, descera do cu para disputar as admiraes da
noite.
-- Danaremos a primeira, disse Horcio.
A moa corou:
-- Sim.
Laura passava. Amlia chamou-a, mostrando-lhe um lugar a
seu lado. Horcio afastou-se para deixar as duas amigas em
liberdade; mas principalmente para poupar a Laura a
contrariedade de sua presena. Desde a noite do teatro o
leo compreendera que a moa lhe votava antipatia.
Conversando com a amiga, Amlia descobriu defronte, no
vo de uma janela, o vulto de Leopoldo, absorvido em
contempl-la com um olhar profundo e intenso, que servia
de vlvula s exuberncias de sua alma. Sentindo-se sob a
influncia desse olhar, a moa inclinou a fronte, como um
sinal de submisso, e abandonou-se  contemplao do
mancebo.
De vez em quando procurava ler de relance no rosto de
Leopoldo as impresses de seu esprito, os movimentos de
sua alma. Pressentiu que o moo desejava aproximar-se
dela para lhe falar, mas no se animava; a solenidade da
festa, a grande concorrncia, a proximidade de Laura,
tolhiam o mancebo, cujo carter fora da intimidade se
confrangia, por uma espcie de pudor, prprio das almas
virgens.
81
Amlia sentiu um desvanecimento, descobrindo aquela
fraqueza no homem cujo olhar a dominava, e lembrando-se
que ela podia nesse instante proteg-lo No h para a
fragilidade da mulher maior orgulho e prazer, do que
observar a fragilidade no homem. Vinga-se da tirania do
sexo forte.
-- Vamos sentar-nos de outro lado, Laura?
-- Para qu? Estamos to bem aqui.
-- Dali v-se melhor a sala; e deve estar mais fresco.
-- Como quiseres.
As duas moas atravessaram a sala e foram tomar lugar
justamente no vo da janela onde Leopoldo se achava.
Amlia conservou-se algum tempo de p, com o pretexto de
arranjar a cadeira, mas para dar ocasio a Leopoldo de
falar-lhe. O mancebo adiantou-se com efeito e
cumprimentou.
Amlia estendeu-lhe a mo com interesse, para anim-lo.
-- Terei a felicidade de danar uma quadrilha...
-- Qual?
-- A ltima!
-- A ltima? repetiu Amlia rindo-se.
-- Sim; depois que tiver danado com todos, replicou o
moo completando seu pensamento com o olhar.
-- Ento a sexta.
A orquestra abriu o baile com uma brilhante sinfonia, depois
da qual deram o sinal da primeira quadrilha. Rompeu-se
ento a simetria, e formou-se o turbilho.
Durante a contradana, Horcio no se esqueceu do pezinho
adorado; e procurou todos os meios de o descobrir nalgum
momento de confuso ou descuido. Chegou at a fingir
82
estouvamento em algumas das marcas com o fim de
embaraar o vestido da moa.
-- Eu me sento! disse-lhe Amlia irritada.
-- Brbara, non hai cor! replicou-lhe Horcio com as
palavras do romance.
-- O seu corao est no botim? perguntou-lhe a moa com
despeito. -- O meu, a senhora bem o sabe, j no me
pertence, pois lho dei h muito tempo; e ando-o agora
procurando no cho, onde creio que o deixou esmagado um
tirano que eu adoro e me repele. Mas conto com a senhora
para mov-lo em meu favor. Sim?
-- No, respondeu a moa agastada.
-- Realmente eu no compreendo. Ser possvel que a
senhora tenha cimes dele? perguntou Horcio gracejando.
A moa olhou-o com expresso.
-- Tenho sim, tenho cimes!
Terminada a quadrilha, Horcio, depois de algumas voltas
de passeio pela sala, deixou a moa no seu lugar e desceu a
escada de mrmore que levava ao jardim, iluminado com
lampies de diversas cores. Havia ao lado da casa, e ao
longo de uma latada, mesas de ferro para tomar sorvetes e
refrescos. Horcio, dirigindo-se para esse lugar, avistou
Leopoldo sentado a uma das mesas.
-- Oh! por c tambm, Leopoldo?
--  verdade; contra meus hbitos.
-- Est esplndido! No achas?
-- Sem dvida. Mas parece que no tem grande interesse
para ti.
-- Por que pensas assim?
83
-- Vens te esconder aqui, quando se dana. Devias deixar
isso para mim, que sou uma espcie de misantropo, uma
alma errante neste mundo das fadas.
-- Para ser franco, devo-te confessar, que neste baile, onde
se acham reunidas as mais bonitas mulheres do Rio de
Janeiro, onde nada falta do que pode tornar brilhante uma
festa, nem o luxo, nem a riqueza, nem a concorrncia, nem
as notabilidades de toda espcie, neste baile s h uma
coisa que me interessa; uma coisa bem pequenina, e por
isso mesmo de um encanto inexprimvel
-- Que condo ser esse to poderoso?
-- Disseste a palavra. E um condo, um verdadeiro condo
de fada, que me transformou de repente, e fez do senhor
um escravo humilde e submisso.
-- Mas no fim de contas o que ?
-- Um pezinho!
Tendo proferido esta palavra, Horcio julgou ter dito tudo
quanto era possvel exprimir na linguagem humana. Um
pezinho, era aquele ente adorado que ele entrevia nos
sonhos dourados de sua imaginao; era o primor, que
deixara impressa a sua forma delicada na mimosa botina. O
moo desenhava na fantasia aquele dolo de suas
adoraes; e acreditava que Leopoldo devia, como ele,
extasiar-se ante a maravilha da natureza.
Longe disso, Leopoldo depreendera das palavras do amigo,
que ele estava sob a influncia de uma paixo materialista;
que ele amava a forma, e levava sua idolatria a ponto de
adorar no a forma completa, a imagem viva e palpitante da
mulher, mas um fragmento, um trecho apenas dessa forma.
-- Pois para mim tambm, disse Leopoldo, s h neste baile
como neste mundo uma coisa que me ilumina a existncia.
-- A glria?... aposto.
-- Um sorriso, apenas.
84
Horcio no pde reprimir um gesto desdenhoso. O sorriso
era para ele uma das coisas mais triviais; tinha-os colhido
tantas vezes, e em lbios to puros e mimosos, que j no
lhe excitavam a ateno. Eram como as flores de um vaso
que todos os dias se substituem.
-- Vais danar? perguntou o leo.
-- Agora no.
-- Pois faamos uma coisa. Conta-me a histria de teu
sorriso, que eu te contarei a histria de meu pezinho.
-- Comea ento. Cabe-te a preferncia, disse Leopoldo.
-- Eu a aceito; porque o objeto de meu culto no tem igual
no mundo.
Horcio acendeu o charuto. Ele no tinha o menor interesse
em saber a histria de Leopoldo; o que desejava era um
pretexto para falar do objeto de sua adorao, e vazar o que
tinha n'alma.
-- H cerca de dois meses, passando pela Rua da Quitanda,
achei por acaso sobre a calada um objeto que tinha cado
de um carro. Era uma botina, mas que botina!... um mimo,
um primor, uma coisa divina!
"No podes fazer idia, no, Leopoldo. Sabes que tenho
amado mulheres lindas de todos os tipos, alvas ou morenas;
formosuras de todas as raas, desde a loura escocesa at a
brasileira de tranas negras; adorei-as, uma depois de
outras, e s vezes ao mesmo tempo, essas diferentes
irradiaes de beleza. Pois confesso-te que nunca o sorriso
ou o beijo da mais sedutora dentre elas me fez palpitar o
corao como aquela botina.
"Pensem os fisiologistas como quiserem, o p  a parte mais
distinta do corpo humano; sem ele a estatura no teria a
nobreza que Deus s concedeu  criatura racional.
"O p revela o carter, a raa e a educao. Cada uma das
feies e dos gestos desse rgo de nossa vontade tem uma
expresso eloqente. H quem no adivinhe em um p
85
delicado e nervoso a alma de fina tmpera? Ao contrrio um
p chato e pesado  a prova infalvel de um gnio tardo e
pachorrento.
"Virglio, o poeta mais elegante que tem existido
compreendeu que Vnus ocultasse nos olhos do filho, na
selva lbica, a beleza imortal de seus olhos, de seu sorriso,
de suas formas sedutoras; mas no aquilo que era sua
essncia divina, sua graa olmpica. Foi pelo andar que ela
revelou-se deusa; et vera incessu patuit dea.
"Nunca sentiste o doce contato do p da mulher amada? 
uma sensao deliciosa que penetra nos seios d'alma. Podes
apertar-lhe a mo, cingi-la ao seio, beij-la. Nada vale
aquele toque sutil que abala at a ltima fibra.
"Faze pois idia do que eu sentia. E a botina no era seno
a esttua ou a efgie do p encantador que a havia calado.
Ali estavam impressos seus graciosos contornos, sua forma
suave.
"Apaixonei-me por esse pezinho, que eu nunca vira, que no
conhecia. Sagrei-lhe minha alma como ao ignoto deo de
minhas adoraes."
Horcio exagerou ento os esforos por ele empregados
para descobrir o misterioso dolo de suas adoraes, e
referiu os fatos que j conhecemos. Teve porm a discrio,
rara em um leo, de no revelar os nomes; receava ainda
que lhe arrebatassem a conquista.
-- Finalmente, concluiu ele, o acaso me fez descobrir a dona
do pezinho que em vo buscava. Hs de crer, Leopoldo?
Conhecia essa moa, que  realmente encantadora; diversas
vezes achei-me com ela em sociedade e nunca sentira  sua
vista a menor comoo. Mas quando soube que a ela
pertencia o tesouro, adorei-a. Para ver o pezinho que
sonhei, estou disposto a fazer a maior das loucuras, casarme!...
--  esta a tua histria?
-- Dize antes meu poema. Sinto no ser poeta para escrevlo.
86
-- Pois, se me permites franqueza, dir-te-ei que realmente o
desenlace que lhe pretendes dar ser uma loucura. O
casamento, quando no une duas almas irms criadas uma
para a outra,  uma espcie de grilheta que prende dois
gals; o suplcio de duas existncias condenadas a se
arrastarem mutuamente Tu no amas essa moa, Horcio.
-- No a amo?
-- No!
-- Quando lhe vou fazer o sacrifcio que nenhuma outra
mulher obteve de mim?
-- No passa de um capricho. Essa moa  para ti um p e
nada mais.
-- A mulher que amamos tem sempre um encanto, uma
graa especial. s vezes so os cabelos; outras os olhos; tu
amas o sorriso; eu o p.
Leopoldo levantou os ombros.
-- Sem dvida. A alma da mulher, como a do homem, se
revela em cada pessoa por uma feio mais distinta, por
uma expresso mais eloqente. Mas no  isto que sucede
contigo. Tu sentes a idolatria da beleza material; procuraste
sempre na mulher a forma, o amor plstico;  fora de
admirar os mais lindos rostos e os talhes mais sedutores,
ficaste com o sentido embotado, precisavas de algum
sainete que estimulasse teu gosto. Viste ou imaginaste um
pezinho mimoso e gentil: tornou-se logo para ti o tipo, o
ideal da beleza material, que te habituaste a adorar.
Horcio soltou uma risada:
-- Olha, Leopoldo, c para mim o platonismo em amor seria
um absurdo incompreensvel se no fosse uma refinada
hipocrisia. Esses mesmos que adoram a mulher como um
anjo, de que se nutrem seno da contemplao de beleza
material que tratas com tamanho desprezo?  possvel que
uma mulher feia seja amada por aberrao do gosto; mas
fazer disso uma regra geral!...
87
-- Ningum pretende semelhante coisa. A beleza  um
encanto, uma graa, um invlucro da mulher; mas no deve
ser exclusivamente a mulher, como a ptala  a flor, e a
centelha  a luz.
-- Sofisma! Tira a beleza  mulher amada e vers o que
fica; o mesmo que fica da flor que murcha e da chama que
se apaga: p ou cinza.
-- Queres que te prove o contrrio? Ouve a minha histria.
-- Ah!  verdade. A histria de teu sorriso?
-- Sim.
XIV
O Almeida acendeu outro charuto.
-- Meu romance, disse Castro, comeou como o teu na Rua
da Quitanda. Passando ali uma manh, vi uma moa, que
produziu em mim profunda impresso. Parei para
contempl-la; mas o que eu admirava nela, no era seu
talhe elegante e seu rosto gracioso: era unicamente a
emanao de sua alma pura, o seu casto e ingnuo sorriso.
"Quando o carro partiu, arrebatando-a a meus olhos,
conservei sua imagem gravada em minha alma. No penses,
porm, que eu revia a sua figura, os seus traos. No: era
uma forma imaterial, uma viso vaga e indistinta. No me
lembrava como eram suas feies; qual era a cor de seus
olhos ou de seus cabelos; mas parecia-me que eu via sua
alma refletida na minha.
"Senti que amava essa moa, e afaguei este sentimento,
que enchia meu ser de alegrias inefveis. Bastava-me ver
de tempos a tempos a minha desconhecida e trocar com ela
um olhar, ou beber-lhe de longe nos lbios o sorriso, que
era emanao de seu ser.
"Estava-me reservada uma dura provana. Um dia vendo a
minha desconhecida entrar no carro, descobri que ela tinha
um defeito... um aleijo,  preciso dizer a palavra. A fmbria
do vestido roagando mostrou-me um p deforme."
88
-- Ah! exclamou Horcio, no podendo reprimir um sorriso.
-- O acaso tornou-se nesse dia de uma previdncia cruel. O
que eu tinha visto de relance era um vulto confuso, um
volume exagerado talvez pela imaginao. Podia acariciar
essa iluso, e desvanecer a impresso desagradvel que
sofrera; mas o desengano no se demorou. Passando nessa
mesma hora pela loja onde compro calado, vi sobre o
mostrador uma botina, verdadeiro contraste da que tu
achaste, Horcio!
--  curioso!
-- No havia que duvidar; era o molde do p deforme que
eu acabava de ver, mas o molde fiel!... Todos os traos
fisionmicos do aleijo ali estavam bem debuxados,
sobretudo na frma que servira para o calado, e que ali se
achava ao lado dele. Poupa-me a descrio do que vi. Era
repulsivo; isto basta.
"Imagina o que devia sofrer! No era o feio, no; era o
horrvel, o estupendo, que de repente cara como um peso
enorme sobre meu corao, para espremer dele, com o
ltimo soro, um amor profundo e veemente.
"A luta foi terrvel, mas breve. O amor triunfou, porque era
o afeto d'alma, e no o culto plstico da beleza. Hoje, se
alguma vez me lembro do que vi, entristeo-me pelo
desgosto que ela h de ter de sua deformidade; mas sinto
que por isso mesmo a amo, e a devo amar ainda mais.
"Compara agora o teu com o meu amor, e dize em
conscincia se tenho ou no razo. Para aniquilar o teu, no
era preciso um aleijo; bastava substituir por uma forma
comum esse primor que tu sonhaste, esse pezinho de silfo
ou de deusa, que talvez no passe de uma iluso."
-- Iluso!... Se eu tive a mesma prova que tu! Mas demos a
questo por finda. Nem tu conseguirs me convencer, nem
eu quero reviver lembranas que te pesam; Desculpa-me
ter falado nisto. Como podia eu imaginar uma tal
coincidncia!
--  verdade!
89
Os dois amigos deram algumas voltas no jardim, falando de
coisas indiferentes, e entrando nas salas, separaram-se.
Horcio procurou Amlia durante algum tempo; afinal,
passando pela porta do toucador, viu a mo da moa que
entreabria a cortina de veludo verde.
-- Est triste, disse-lhe o mancebo conduzindo-a ao salo.
-- Estou fatigada, respondeu a moa com frio desdm.
Horcio conhecia profundamente a fisiologia da mulher que
ama; tantas vezes tinha lido e relido o livro misterioso do
corao feminino, que no podia escapar-lhe a menor
alterao do texto. O tom de Amlia o surpreendeu; alguma
coisa havia. O que era? O que podia ser?
Poucos momentos antes ele a deixara amvel e terna; uma
hora depois vinha encontr-la desdenhosa e fria.
-- Cimes, naturalmente! pensou o leo com certo
desvanecimento. Contaram-lhe alguma ou ela imaginou!
O moo resolveu sondar o corao da noiva:
-- A senhora tem mais alguma coisa alm da fadiga,
confesse.
-- Ilude-se!
-- Talvez! Concordo, para no contrari-la ainda mais.
Deram alguns passos silenciosos.
-- V amanh jantar conosco, sim? disse Amlia voltando-se
para o cavalheiro com um sorriso inefvel.
A transio no podia ser mais brusca: uma aurora no seio
da noite, tal era aquele sorriso orvalhado de meiguices e
graas encantadoras.
Outro, que no fosse Horcio teria respondido sem a menor
hesitao o sim, que suplicavam lbios to mimosos. Mas
esse astuto Csar dos sales, perito na ttica da guerra 
mulher, no era homem que perdesse to bom ensejo de
90
alcanar o triunfo completo. O adversrio lhe dera a
vantagem da posio: cumpria aproveit-la.
-- Amanh?
A moa fez com a cabea um gentil aceno.
-- No irei.
-- Obrigada.
-- No devo ir.
-- Por qu?
-- Se eu fosse, pediria ainda uma vez aquilo que lhe tenho
pedido tantas, e que a senhora me tem recusado to
cruelmente.
-- Ah!
-- Bem v!... Iria contrari-la, aborrec-la...
-- Cuida?...
Esta palavra tinha uma reticncia, e essa reticncia era um
sorriso que entreabria o cu de uma alma cndida.
-- Ento amanh?... disse Horcio.
-- Vai?
-- E se eu pedir?
-- Experimente!
Amlia sentou-se, e Horcio, brio de ventura, desceu outra
vez ao jardim para desafogar as exuberncias de sua alma.
Nunca a primeira entrevista da mulher que mais amara
produzira nele to profunda emoo. Para achar alguma
coisa comparvel com o que ento sentia fora necessrio
remontar aos dias da juventude, aos tempos das primeiras
pulsaes de um corao virgem.
91
Sua paixo por Amlia tinha realmente uma virgindade. O
conquistador havia amado na mulher todas as graas e
encantos, mas nunca at ento havia adorado um p. Devia
pois experimentar realmente as sensaes inebriantes de
um primeiro amor.
Na sala danava-se a sexta quadrilha.
-- Acho-a pensativa, disse Leopoldo, reparando que o lindo
rosto de seu par, ordinariamente animado por uma gentileza
vivaz, estava agora amortecido pela reflexo.
Amlia fitou nele seus grandes olhos ingnuos.
-- E no tenho razo?...
Leopoldo calou-se. Tinha compreendido o pensamento de
Amlia. Na vspera de decidir de seu destino, de ligar
eternamente sua existncia, a mulher deve ter desses
instantes de recolhimento ntimo. A dvida agita-se no seio
da f mais profunda, o receio no amago da esperana mais
risonha. As flores do corao, como as da natureza, tm um
verme, que as babuja.
Que podia Leopoldo dizer a essa alma perplexa? Aumentarlhe
a dvida, dar fora s vacilaes, no seria digno;
parecia-lhe uma seduo. Confort-la em sua f, animar-lhe
a esperana, apontar-lhe para um futuro cheio de venturas,
fora nobre e generoso; mas faltava-lhe abnegao para
tanto.
Terminada a contradana, Amlia pelo brao do par deu
uma volta pela sala. A um aceno de seu leque, Horcio, que
estava conversando em um grupo, chegou-se.
-- Chame papai. So horas!
Enquanto o leo procurava o Sales para preveni-lo do
desejo de sua filha, Amlia dirigiu-se ao toucador.
Leopoldo ficara surpreso de ver a moa falar a Horcio, e
com um tom bem expressivo de intimidade.
-- No pensava que se conhecessem... tanto! disse ele com
a voz comovida.
92
-- Pois  com ele...
O rubor que tingiu as faces da donzela rematou a frase com
a sublime eloqncia do pudor.
-- No sabia? perguntou a moa para disfarar.
-- No!
-- Como o Sr. diz este no!
Com efeito a voz de Leopoldo tivera uma vibrao profunda,
quando pronunciara aquele simples monosslabo.
-- Desejava que no fosse ele? perguntou a moa com certa
ansiedade.
-- Por qu?
Aproximava-se Horcio dando o brao a D. Leonor, e
seguido pelo negociante. Amlia separou-se de seu
cavalheiro, e levantando a cortina de veludo do toucador,
voltou-se:
-- H de me dizer! insistiu.
--  preciso? perguntou Leopoldo, e seu olhar desceu
lentamente do rosto da moa  fmbria do vestido.
Amlia empalideceu; a cortina, escapando de sua mo
trmula, ocultou-a.
-- Conhecias Amlia? perguntou Horcio, enquanto esperava
que as senhoras sassem do toucador.
-- Ests admirado, sem dvida! retorquiu Leopoldo
secamente.
O leo fitou no companheiro um olhar interrogador; mas
ocorreu-lhe de repente uma idia, que lhe trouxe aos lbios
um sorriso de ironia. Lembrara-se do aleijo.
A mulher amada por Leopoldo no podia ser Amlia. Mas
quem sabe se o idealista capaz de adorar uma
monstruosidade, o esprito severo que desdenhava a beleza
93
material, no sofria a seduo irresistvel do mimoso
pezinho?
-- Admirado de qu? De te ver convertido  idolatria da
beleza material? . . .
Amlia que saa do toucador, embuada em sua capa de
caxemira escarlate, tomou o brao do noivo e desceu as
escadas.
Quando partia o carro de Sales, Leopoldo que tambm se
retirava, encontrou Horcio na porta.
-- A iluso  a nica realidade desta vida! disse ele sorrindo.
-- O qu?
-- Adeus!
XV
Seriam quatro horas da tarde. Amlia, j vestida para o
jantar, esperava o noivo trabalhando em um bordado de
tapearia. A seu lado, em uma linda banca de costura
forrada de pau-cetim, havia, alm dos utenslios
necessrios, uma profuso de seda frouxa de vrias cores.
No cetim branco, estendido pelo elegante bastidor de
mogno, via-se o risco de um par de sandlias, que pareciam
destinadas a alguma fada, to pequena, mimosa e delicada
era a forma do p.
Um dos esboos estava ainda intato; no outro porm via-se
j um floro de rosas bordadas a seda frouxa, e no centro a
letra L, feita com toral de ouro. Era naturalmente a inicial
do nome, em cuja teno a moa trabalhava.
Amlia estava nesse dia talvez menos formosa, porm em
compensao mais sedutora. Certa expresso languida, ou
de cansao ou de melancolia, embotava a flor de sua
habitual lindeza, desmaiando o matiz dos lbios e das faces,
velando o brilho dos olhos pardos. Seu traje branco ainda
mais ameigava a sua fisionomia.
94
No h para arrebatar os sentidos como essa languidez da
mulher amada. Parece que ela verga com a exuberncia do
amor, como a planta muito viosa, quando concentra a
seiva que no brota em flor. O homem querido se regozija,
pensando que suas palavras e suas carcias podem, como os
orvalhos celestes, reanimar e expandir o corao da mulher
amada.
Talvez em Amlia no fosse esse desmaio seno o efeito da
fadiga do baile, e das cismas da noite maldormida.
Enquanto bordava, o ouvido da moa atento esperava
algum rumor que lhe anunciasse a chegada do noivo. Um
carro parou  porta; e momentos depois soaram na sala de
visitas os passos de algum.
Era Horcio.
Vendo a moa na saleta prxima, o leo dirigiu-se a ela,
com a familiaridade a que lhe dava direito seu ttulo de
noivo. Trocados os cumprimentos usuais, sentou-se junto ao
bastidor.
-- O que est bordando?
Amlia fez um gesto para cobrir o bordado:
-- Deixe ver! insistiu o moo.
-- No vale a pena!
-- Ah!
Esta exclamao desfez-se nos lbios do mancebo em um
sorriso de jbilo.
--  um presente de anos para uma amiga! disse Amlia.
-- No so para a senhora?
-- No, respondeu a moa admirada.
-- Est zombando comigo!
-- Veja!
95
A unha de ncar da moa mostrou o L bordado a ouro.
-- Pois h quem-tenha este pezinho mimoso, a no ser
minha noiva? disse Horcio rindo-se.
-- Eu? exclamou Amlia enrubescendo. Pobre de mim!
-- Lembra-se do que me prometeu ontem  noite?
Uma nuvem de tristeza cobriu o lindo semblante da moa;
com a fronte pendida e os olhos baixos, parecia contrada
por uma dor ntima.
-- Amlia!
-- Ontem... no tive animo de contrari-lo. Fiz mal;
desculpe-me.
-- Ento sua promessa? disse o moo com ironia.
Amlia voltou o rosto como para esconder uma lgrima.
-- Acredite. O que me pede... no posso... no tenho foras
para fazer. Se o senhor soubesse!... E entretanto deve
saber, porque... Eu lhe suplico, no falemos disso agora;
depois eu lhe direi. Prometo-lhe.
-- No se d a este trabalho. J sei quanto basta: zombou
de mim.
Horcio levantou-se visivelmente despeitado, e volveu os
passos pela sala. Amlia continuou a bordar talvez para
disfarar o seu vexame.
Decorridos alguns instantes, Horcio, lanando um olhar
para a moa, ocupada com seu bordado, viu alguma coisa
que o sobressaltou. A fmbria do vestido, suspensa na
travessa do bastidor, devia descobrir o p da moa para
quem estivesse sentado  sua esquerda.
O leo aproximou-se na esperana de surpreender o avaro
tesouro que se roubava a seus olhos.
-- No sabia que bordava to bem!
96
-- Ora! No tenho pacincia para estes trabalhos. Se no
fosse uma dvida...
-- Como? No  mais presente de anos?
-- Uma e outra coisa.
-- Ou talvez nem uma nem outra, disse Horcio adoando o
tom de ironia.
-- Que necessidade tinha eu de engan-lo? disse Amlia
com um doce ressentimento. Uma amiga minha...
-- Cujo nome no consta.
--  segredo! atalhou a moa com faceirice.
-- Ah!  segredo?
-- Inviolvel. Ela no quer por coisa alguma que saibam,
nem mesmo suspeitem...
-- Que  sua amiga?
-- Ora!... Que tem um p deste tamanho, disse a moa
mostrando o bordado.
-- Deveras? acudiu Horcio.
-- Ela pensa que  um aleijo e sente uma tristeza...
-- Na verdade, possui um tesouro, um primor! Admira como
sua amiga j no morreu de desgosto.
-- Mas, falando srio: no  natural que uma moa tenha o
p de uma menina de sete anos.
-- No sei se  natural; mas sublime, asseguro-lhe que .
H certas graas na mulher que devem ficar sempre
meninas; as huris, as fadas, as deusas, so assim.
-- Com efeito! Se eu fosse ciumenta!
-- De sua amiga?... De uma amiga to ntima?... Era quase
ter cimes de si mesma! disse Horcio gracejando.
97
-- O que o senhor quer, sei eu.  ver se adivinha.
Horcio tinha sustentado esta conversa com interesse
extremo, menos pelas palavras da moa, do que pelos
movimentos da fmbria do vestido. A saia, arregaando
gradualmente com a inflexo do talhe gentil da moa
reclinada sobre o bastidor, prometia brevemente descobrir o
tesouro, to estremecido pelo mancebo.
Amlia, ocupada com seu trabalho e distrada com a
conversa, se esquecera daquele constante cuidado que ela
tinha em compor a orla do vestido. Durante a conversa
apenas uma vez tirara os olhos do bordado, para lanar uma
vista furtiva ao leo.
-- Mas ento essa amiga misteriosa... A senhora ia contar
uma histria, se no me engano.
-- Histria, no senhor. Queria explicar-lhe por que este
bordado  o pagamento de uma dvida.
-- Justamente.
-- Pois essa minha amiga incomodava-se muito quando
tinha de comprar botinas; custava achar um par que lhe
servisse. As de senhora eram muito grandes; as de menina
eram muito baixas. Afinal encontrou um sapateiro, que
trabalha to bem como os melhores de Paris.
--  exato.
-- Como exato? O senhor sabe?
-- A senhora no fala do Camps? disse Horcio um tanto
perturbado.
-- No, senhor.
-- Pensei.
-- Haver dois meses, indo eu  cidade, minha amiga, que
tinha feito uma encomenda de botinas, pediu-me para ver
se estava pronta. Quando o criado a trouxe para o carro
onde o esperava, caiu um p de botina j usado, que fora
para modelo. Minha amiga ficou muito aflita; e eu fiz teno
98
de dar-lhe no dia de seus anos umas chinelas bordadas por
mim. Bem v que no o enganei.
Proferindo as ltimas palavras, Amlia sempre ocupada com
seu bordado, debruou-se completamente sobre o bastidor
para desembaraar o fio de seda frouxo. Este movimento
produziu o que Horcio esperava. A saia, retrada pela
travessa do bastidor, descobriu at o artelho o p da moa.
O moo estremeceu com a forte emoo; e fechou os olhos,
atordoado.
O que vira era uma coisa indefinvel, estupenda. Era o
aleijo, a monstruosidade de que lhe falara Leopoldo.
Aquela massa informe; aquela enormidade cheia de
cavernas e protuberncias, ele a tinha ali em face, diante
dos olhos, escarnecendo do seu amor, como um desses
caturras hediondos das lendas da Idade Mdia.
-- Diga-me uma coisa: ontem depois que samos, o senhor
conversou com aquele moo que danou comigo? O
Leopoldo, no ?
No recebendo resposta, Amlia ergueu a cabea para
interrogar o noivo com o olhar. O aspecto demudado de
Horcio, o sorriso pungente que amarrotava seu bigode
artstico, a vista ansiada que ele tinha fixa no monstro, lhe
revelaram subitamente o que sucedera.
Um grito de aflio escapou-se do peito da moa, que
afastou violentamente de si o bastidor, causa do acidente, e
colheu os largos volantes da saia, ocultando o que ela por
tanto tempo defendera contra a curiosidade sfrega do
moo. Por alguns instantes os noivos permaneceram mudos
e confusos, sentindo-se repelidos um pelo outro, e contudo
no ousando afastar-se.  um suplcio cruel esse que inflige
a presena de um ente que faz corar de vergonha.
Afinal Horcio levantou-se e deu alguns passos a esmo.
Amlia aproveitou-se desse movimento para fugir da sala.
Ficando s, o leo dardejou para o interior um olhar terrvel;
e tomando o chapu, desceu rapidamente as escadas.
99
Agora ele compreendia tudo; e as palavras que Leopoldo lhe
dissera na vspera, ao sair do baile, lhe repercutiam ao
ouvido, como uma gargalhada satnica:-- "A iluso  a
nica realidade deste mundo".
-- Como pude eu tanto tempo iludir-me com o excessivo
recato de Amlia? Como no desconfiei do pudor selvagem
que velava semelhante a um drago sobre o terrvel
segredo?
"No h moa, seja ela o anjo da pudiccia, que no mostre
ao menos a pontinha do p, quando o tem mimoso e gentil.
Eu devia saber disso, mas estava cego. Todos cochilamos,
sem ser Homeros; eu que me prezo de conhecer a mulher,
portei-me como um calouro.
"Consumir dois meses a correr aps um sombra, e quando
esperava que a sombra tomasse corpo, ela se desvanece...
Qual! Antes se desvanecesse; mas ao contrrio toma um
vulto medonho, enorme, esqulido. Faz-me quase lembrar o
verso de Cames."
Horcio soltou uma gargalhada:
-- Realmente eu no sei qual de ns dois ficou mais corrido.
Se ela de mostrar a toesa; se eu de a ver.
"Sonhar uma prola, e encontrar um seixo; imaginar um
mimo, e achar uma brutalidade; desejar um boto de rosa,
e colher uma tbara!
"Se os rapazes souberem disto, estou desonrado. Como
posso eu mais apresentar-me na Rua do Ouvidor, quando a
coisa divulgar-se? Todo o asno ter direito de atirar-me o
coice, como ao leo moribundo da fbula."
Horcio comeou a refletir se fizera bem saindo to
precipitadamente da casa de Sales. Moderou o passo, e
olhou o relgio. Eram perto de cinco horas. Se voltasse,
chegaria tarde; demais, como explicar a retirada e a volta?
-- Em todo caso, pensou o leo, a fortuna no me
desamparou de todo. Assim como a iluso durou at hoje,
podia prolongar-se mais algumas semanas, e... Tremo de
100
horror, quando me lembro que eu podia ser atado quele
mouro, quele poste! Ser condenado a arrastar uma trave
por toda a vida? Que suplcio!
"Se eu pudesse imaginar que o Onipotente, criador de
tantas maravilhas, se ocupa com a minha ridcula
individualidade e se interessa pelos pecados que eu tenho
cometido, me ajoelhava aqui mesmo na rua, e lhe renderia
graas pela minha salvao.
"Quem se livrasse de ser esmagado por uma rocha, no
escaparia de to grande perigo como eu. Casar-se um
homem com aquele p, seria predestinar-se para o
homicdio."
Passava um carro, que parou de repente.
-- Ainda por aqui, Almeida? disse o Sales deitando a cabea
fora do carro.
--  verdade... sa, mas...
-- Entre, que ho de estar  nossa espera. So cinco horas;
demorei-me hoje alm do costume; por causa mesmo do
senhor, magano! Certos arranjos.
Horcio procurou rir, mas fez uma careta que desculpou
com um calo. Ele, o leo, sempre elegante, correto e
irrepreensvel no traje como nas maneiras, tinha perdido
completamente a serenidade de esprito.
As senhoras estavam reunidas na saleta. Amlia ficou
surpreendida, vendo Horcio de volta com seu pai; e
reprimiu o contentamento que sentia. Mas este durou
pouco. Ela conheceu logo que o leo obedecera mais s
convenincias, do que ao afeto que lhe tinha.
Contudo essa volta significava alguma coisa. Ela, Amlia,
no causava horror a seu noivo.
O jantar foi animado pela conversa viva e espirituosa de
Horcio, que havia recuperado seu sangue-frio. Uma
circunstncia porm no escapou a Amlia, que passou
despercebida s outras pessoas; o leo, apesar de sentado 
101
sua esquerda, no achou um momento para trocar com ela
uma palavra. Ao contrrio, manteve sempre a conversao
geral, para impedir o dilogo ntimo, que ele receava.
Terminando o jantar, Horcio achou um pretexto para
retirar-se logo.
-- O que se passou, D. Amlia,  mais do que um segredo
para mim; eu nada sei, esqueci, disse ele despedindo-se.
Tocando apenas na mo que a moa lhe estendera, saiu.
Amlia deu um passo para cham-lo, mas apoiando-se ao
recosto do sof, permaneceu imvel, escutando os passos
do noivo at que se perderam ao longe.
XVI
Fazia uma semana que Horcio no aparecia em casa de
Sales.
Amlia tinha por duas vezes mandado saber do noivo. Da
primeira contentou-se com um recado; da segunda envioulhe
uma saudade.
O negociante de sua parte havia passado por casa do moo,
que pretextou um defluxo para justificar sua ausncia; e
prometeu aparecer no dia seguinte.
Horcio compreendia a necessidade de sair da posio difcil
em que se achava, mas debalde procurava um meio.
Cansado de cogitar, entendeu que o melhor era confiar-se 
inspirao do momento.
No dia seguinte  noite, dirigiu-se  casa do negociante.
As duas senhoras estavam sentadas junto  mesa; a me
lia, a filha pensava. Amlia estava triste, sua me supunha
que eram saudades.
Quando Horcio entrou, D. Leonor o festejou com
verdadeiro prazer. Amlia sentiu um vislumbre de
esperana, que iluminou o sorriso de seus lbios.
102
-- Felizmente! exclamou D. Leonor. Esta casa era uma fonte
dos suspiros!
A conversao comeou friamente, e foi se arrastando por
algum tempo. -- No tem sado? perguntou Horcio depois
de uma pausa.
-- No; Amlia no tem querido.
-- Por qu? perguntou o moo voltando-se para a noiva.
-- Ento no sabe? acudiu D. Leonor.
-- Porque no se ofereceu ocasio, disse Amlia.
-- Mas tem recebido visitas?
-- Algumas.
-- O Leopoldo no apareceu?
-- No freqenta nossa casa, respondeu a moa.
-- Ah!... cuidei.
-- Se ele nos visitasse, o senhor o teria encontrado aqui
muitas vezes. -- Podamos nos desencontrar, disse Horcio
com um sorriso motejador. Amlia percebeu que o moo
estava procurando um pretexto para despeitar-se. D. Leonor
tendo continuado a leitura interrompida, estava alheia 
conversao.
-- Foi em casa do Azevedo que o apresentaram  senhora?
-- No; conheo-o de muito tempo; h perto de dois meses.
-- De onde, se no  segredo?
-- Segredo, por qu? Ele freqenta a casa de D. Clementina
que recebe s quintas-feiras. Constantemente nos
encontramos a.  uma reunio muito agradvel; estamos
quase em famlia, sem a menor cerimnia.
103
-- Ah! nunca me convidou para essas reunies; eu teria
muito prazer em acompanh-la, mas talvez fosse
importuno, como j vou sendo aqui.
-- O senhor est habituado a viver na alta sociedade; havia
de aborrecer-se.
-- Mas a senhora no se aborrecia; ao contrrio divertia-se
bastante.
-- Alguma coisa.
-- E Leopoldo era seu par?
-- Era.
-- Par constante?
-- No sei se era constante ou no; quase sempre ele
danava comigo, porque l no h muito onde escolher; os
pares so poucos.
-- timo sistema! Assim no se repara.
-- Em qu?
-- Em certa assiduidade! Ainda mesmo que uma moa j
tenha noivo arranjado, h gente que exige da parte dessa
moa certa reserva, porque enfim o outro pode no querer
aceitar a responsabilidade de tudo!  uma impertinncia,
concordo, mas o mundo tem destes caprichos.
-- Isso se entende naturalmente com as moas que tm
noivo arranjado, retorquiu Amlia frisando a palavra, e no
com aquelas, cuja mo se pediu talvez para satisfazer uma
simples fantasia.
A moa levantou-se da mesa lanando ao leo um olhar
desdenhoso, e foi sentar-se ao piano. Enquanto ela tocava
uma variao de Thalberg, Horcio para fazer alguma coisa,
se entreteve em arranjar as figuras chinesas de um jogo de
pacincia. Nunca ele precisara tanto de prover-se dessa
virtude evanglica.
104
Decorridos alguns instantes o leo ergueu-se da mesa, deu
algumas voltas pela sala, e aproximou-se do piano, como
para ver a elegncia com que a moa dedilhava.
-- A senhora acha muito natural, D. Amlia, que uma noiva
freqente assiduamente uma casa onde no tem entrada o
homem com quem vai casar-se; acha natural que essa moa
tenha em tais reunies um par efetivo que provavelmente
cultiva uma dessas amizades cndidas dos romances de
Balzac, verdadeiros lrios do vale, que vivem de orvalhos e
de sombras. Eu, porm, sou um esprito prosaico e material;
tenho a infelicidade de no acreditar na atrao misteriosa
dos espritos, no consrcio ideal ias almas irms, nos sonhos
etreos, nos eflvios celestes, em toda essa gria
sentimental. Para mim, inteligncia grosseira, tudo isso no
passa de uma hipocrisia do primeiro tartufo deste mundo, o
amor.  um tiranete que toma todas as figuras e posies;
faz-se menino ou velho, anjo ou demnio, poeta ou
banqueiro... Estou incomodando-a talvez?
-- No; acabe.
A moa fazia com uma ligeira surdina o acompanhamento
das palavras do leo; mas  ltima frase, ela retirou as
mos do teclado. Foi esse o motivo da pergunta de Horcio.
-- A senhora deve sentir muito, e Leopoldo com maior
razo, de serem privados de uma distrao que tanto lhes
agrada!
-- Compreendo, replicou Amlia. O senhor me probe que eu
v  casa de D. Clementina?
-- Que idia! No tenho direito de proibir; ainda no sou seu
marido; a senhora  completamente livre de suas aes,
pode ir  casa de D. Clementina, ou onde lhe aprouver;
assim como eu posso, querendo, passar as noites no Clube
ou no Alczar.
Amlia soltou uma risada.
-- Pensava que os lees estavam isentos dessa fragilidade
do cime.
105
-- Perdo; no se trata de cime, nem sei o que isso . A
questo reduz-se a uma antipatia de caracteres, a uma
contradio de gnios, que deve ter para o futuro graves
conseqncias. A senhora  idealista, eu sou materialista.
Um quisera viver no mundo dos sonhos, outro neste vale
das lgrimas e das realidades. A senhora procurando-me no
cu entre as estrelas e os anjos, e no me achando a,
sofreria uma cruel decepo; entretanto que eu na terra,
ficarei reduzido  sombra da mulher que amei.
-- No  to pouco, para quem se contentava com um p de
criana, disse Amlia com ironia.
-- Mas esse p era a realidade, a expresso a mais sublime
dela!
-- Custa-lhe pouco a possuir essa realidade. Mande fabricla
em cera: sair ainda mais perfeita.
-- Ainda no perdi a esperana de encontr-la.
O ch interrompeu o dilogo. Os dois noivos aproximaram
da mesa oval, onde o criado acabava de colocar a bandeja.
A fisionomia de Amlia perdera a expresso de tristeza e
desnimo que tinha a princpio; a conversa lhe deixara no
semblante alguns tons vivos.
Ocupada em dispor as xcaras para ench-las, os gestos
sempre macios da moa revelavam certa crispao nervosa.
Horcio ficara contrariado, porque no tivera tempo de
precipitar o casus belli. Receava que se demorasse ainda o
rompimento que ele tanto desejava.
-- Mame, disse Amlia com inteno, amanh  quintafeira.
Vamos passar a noite em casa de D. Clementina?
-- Se quiseres.
-- No devemos faltar; deixamos de ir a semana passada.
-- Foi logo depois do baile do Azevedo.
106
-- No o convido, disse Amlia voltando-se para Horcio,
porque o senhor no freqenta essas reunies de gente
pobre.
-- Sem dvida; tenho medo de evaporar-me em devaneios e
suspiros, respondeu Horcio, cruzando com a moa um
olhar de desafio.
Ele sentiu que Amlia o provocava, e exultou. A moa
estava disposta a resistir; o rompimento era infalvel e
pronto.
-- Eu gosto bem dessas partidas; a noite passa to
agradvel.
Aproveitando-se de um momento em que D. Leonor se
afastou, Horcio atirou  moa rapidamente estas palavras:
-- Pois se a senhora voltar  casa de D. Clementina, eu no
voltarei mais aqui.
Amlia estremeceu.
Um quarto de hora depois, Horcio retirou-se. Quando se
despedia das senhoras, disse o leo  moa apertando-lhe a
mo:
-- Desejo que se divirta muito amanh.
-- Aonde? perguntou D. Leonor.
-- Em casa de D. Clementina. No vai, D. Amlia?
A moa hesitou um instante. O ofego de seu colo traiu uma
luta violenta, mas rpida.
Sua resoluo, antes que ela a exprimisse, manifestou-se na
altivez do porte, que uma vibrao ntima erigira.
-- Vou sem falta!
Horcio, soltando a mo da moa, que foi bater inerte nos
folhos do vestido, cortejou profundamente:
-- Seja muito feliz.
107
Apenas o leo desapareceu na porta, Amlia abraando e
beijando a me, subiu precipitadamente a sua alcova;
atirou-se a uma conversadeira, e desafogou em pranto e
soluos a dor que tinha recalcado desde muitos dias.
A maior parte da noite foi para ela de viglia. Viu correrem
as horas; cada momento que se escoava era uma
esperana, uma iluso que se desfolhava da flor viosa de
sua alma.
Aqueles que se separam das pessoas ou dos stios queridos,
conhecem bem esse travo de corao que chamamos
saudade; e sabem quanto  cruel o momento da separao.
Mas no h despedida cruciante como seja a da alma pelo
amor que nutriu durante muito tempo. H a mais do que
uma separao:  quase a mutilao moral.
Amlia compreendera que tudo acabara entre Horcio e ela.
Desde o dia do jantar receara esse resultado; mas ainda
alimentava uma esperana. Naquela noite a esperana
murchara, se no foi ela prpria, Amlia, quem a desfolhara.
Agora na calada da noite, em sua alcova que lhe parecia um
ermo, ela tinha medo do isolamento em que se achava.
Algumas vezes sua alma sentia-se como que asfixiada pelo
silncio e pela treva que a submergiam.
XVII
Como dissera a Amlia, na sua ltima visita, Horcio no
tinha perdido a esperana de encontrar o que ele chamava a
realidade de seu amor: o pezinho gentil e mimoso do qual
ele possua a botina.
Iludira-se nas suas investigaes; era preciso recomear.
Tal era o pensamento que preocupava o leo, recostado
naquela mesma poltrona, onde o vimos no primeiro dia. Seu
olhar embebido nos frocos de fumaa do puro havana,
rasteava nas espirais difanas a imagem confusa de seus
pensamentos.
108
Tinham decorrido trs dias depois do seu rompimento com
Amlia. Logo na seguinte manh, o leo para no dar tempo
ao arrependimento da moa, escreveu uma carta ao Sales,
manifestando seu receio de que a antipatia de gnios
tornasse infeliz uma unio que todos ardentemente
desejavam.
O negociante mostrou a carta  filha, que lhe disse com um
sorriso forado:
-- Ele tem razo!
A carta de Horcio teve resposta no mesmo dia. O Sales
encontrando-o na Rua do Ouvidor recusou-lhe o
cumprimento.
O leo, satisfeito com esse pronto desenlace que evitava
longas explicaes, achou-se a poucos passos de distncia
em frente de Leopoldo.
-- Oh! Tu me trazes felicidade! exclamou o leo, apertandolhe
a mo. Sempre que nos encontramos, ou est para
acontecer ou j tem acontecido alguma coisa de bom para
mim.
-- No sabes quanto estimo!... Assim eu sou uma espcie de
astro propcio, sob cuja influncia nasceste.
-- Queres ver? Havia muito tempo que no te via, quando
nos encontramos no baile do Azevedo. Pois nessa noite
decidiu-se meu destino.
-- Ah! e sob o meu influxo benfico?
-- Est visto. Lembras-te que eu te disse que estava
disposto a todos os sacrifcios at o do casamento para
possuir aquele pezinho!...
-- Lembro-me.
-- O nico obstculo era uma espcie de promessa ou
arranjo de famlia. Felizmente a menina, a tal Amlia,
compreendeu que perdia seu tempo, e arrufou-se na noite
do baile por uma ninharia. Eu aproveitei o pretexto; escrevi
ao pai retirando minha palavra, e agora mesmo ele me
109
acaba de responder. Estou livre como o ar, e contente como
um rapaz que sai do colgio.
-- Neste caso dou-te meus parabns.
-- E tu como vais com o sorriso?
-- Sem novidade.
-- Dize-me uma coisa, no dia em que a viste pela primeira
vez, ela estava s ou com outra moa? Fao-te esta
pergunta porque foi na Rua da Quitanda e quase pelo
mesmo tempo que eu achei a botina.
-- Eram duas, respondeu Leopoldo sorrindo.
-- Em uma vitria?
-- Sim.
-- A outra era mais baixa?
-- No afirmo.
-- Adeus.
O leo separou-se do amigo, e repassando as
particularidades de sua conversa com Amlia perto do
bastidor e no dia do jantar, comeou a combin-las com as
informaes de Leopoldo e com as circunstncias do
encontro no Passeio Pblico, onde vira o sinal impresso na
areia pelo mimoso pezinho.
Agora, fumando seu charuto depois do jantar, o leo
resumia todas as suas reflexes, e chegava a este
resultado:
-- Decididamente o pezinho  de uma moa que ia com
Amlia, no dia em que se perdeu a botina e no dia em que
eu a vi de longe no Passeio Pblico. Essa moa, cuja inicial 
um L, no  outra seno Laura. Aquele pudor feroz era um
indcio infalvel. Amlia procurava imit-lo por motivo bem
diverso: mas no o conseguiu.
110
O moo chegou-se  banquinha onde estava o cofre de paurosa
e contemplou a botina.
 noite, o leo foi a uma partida. Sua estrela o favorecia.
Laura l estava. Dirigiu-lhe algumas banalidades graciosas,
que ela a princpio recebeu com manifesta esquivana, mas
depois com timidez.
Horcio compreendia a razo do procedimento da moa.
Para tranqiliz-la, teve o cuidado de nunca abaixar a vista
 fmbria do vestido, e mostrar-se enlevado pelo colo
gracioso da gentil senhora. A lio que recebera
anteriormente, o tornou de uma prudncia consumada.
No fim da noite o leo conseguira restabelecer a confiana
no esprito de Laura, desvanecendo-lhe a suspeita deixada
pela cena do teatro. Era o essencial; com os meios de
seduo de que dispunha, e a inclinao que a moa
revelava por ele, contava certa a conquista. A questo era
de tempo.
Antes de quinze dias freqentava a casa da moa e estava
na intimidade da famlia.
Laura perdera o marido aos 17 anos, pouco tempo depois de
casada. Era rica; no lhe faltavam pretendentes atrados
pelo dote e pela beleza; mas ela no parecia disposta a
tentar segunda vez a felicidade conjugal, embora no
tivesse passado da lua-de-mel.  natural que o desejo lhe
chegasse com o primeiro fio de neve; quando fossem
rareando os apaixonados que a cercavam.
Uma manh, Horcio passando a p, como costumava, pela
casa da moa, viu-a, por entre as grades, sentada no jardim
ocupada em fazer um ramo de flores. Entrou e foi ter com
ela,  sombra de uma latada de madressilvas.
Laura deu-lhe lugar perto de si; e comearam a conversar
sobre flores, modas e mil futilidades.
Eram dez horas do dia. O sol brilhava em cu lmpido; uma
aragem fresca sussurrava entre as folhas; os coleiros
trinavam nas ramas das laranjeiras. Esse concerto de
111
perfumes e harmonias convidava o corao a abrir-se e
cantar o seu hino de amor.
Laura reclinou a fonte e emudeceu, com os olhos embebidos
no seio de uma rosa, que tinha no regao. Horcio tomoulhe
a mo, que ela cedeu com tnue resistncia.
-- Sabe desde quando eu a amo, Laura? Desde o dia em que
a vi pela primeira vez passar em um carro. Foi, se no me
engano, na Rua da Quitanda; ia com a filha do Sales.
Lembra-se?
A moa fez um gesto afirmativo.
-- Depois encontrei-a no teatro. A princpio seus olhos me
deixaram conceber alguma esperana; mas o desengano foi
cruel. Nem imagina como sofri! Cuidei que no houvesse
mulher capaz de obrigar-me a voltar s ingenuidades dos 18
anos. Um dia ainda me lembro, via-a de longe entrar no
Passeio Pblico; apressei-me para ter o prazer de cortej-la,
receber um olhar. Debalde corri todas as ruas; quando
voltei  porta fiquei desesperado. A senhora tinha sado,
sempre com a filha do Sales. Recorda-se?
-- Recordo-me, respondeu a moa. Mas era por mim que
fazia tudo
isso?
- Duvida, Laura?
-- Nega que esteve apaixonado por Amlia? At diziam que
j a tinha pedido.
-- Que ingratido! No sabe ento por que me fiz apresentar
em casa do Sales? Para v-la; era preciso procurar um
meio; a senhora j no se lembra da dureza com que me
tratava.
-- E por isso consolava-se com Amlia?
-- Se amasse, Laura, havia de saber o que  o cime, e as
loucuras que ele nos obriga a fazer! Mas a senhora no
ama!
112
-- Quem lhe disse?
-- Essa frieza.
-- E o que eu sofri?... balbuciou a moca pondo os olhos
languidos no semblante do mancebo.
-- Perdo, Laura, exclamou Horcio ajoelhando. Eu era um
louco, indigno de teu amor; e no mereo tanta felicidade.
Mas deixa-me implorar o meu perdo; deixa-me beijar teus
ps, que...
-- Ah! .. .
Horcio proferiu aquelas palavras apaixonadas, de joelhos
diante da moca que sorria inclinada para ele; de repente
abaixou-se para beijar-lhe os ps, esse objeto de sua
adorao. Foi ento que ela soltando um grito de espanto, o
repeliu para longe de si com horror.
Contudo, o moo, que preparara toda aquela cena para
chegar  realizao do desejo por tanto tempo afagado,
conseguira ver... mas no o que esperava: um pezinho
mimoso e gentil; e sim dois ps ingleses de sofrvel
tamanho, que lhe pareciam descansar sobre uma almofada
preta.
O semblante de Laura se tinha demudado de uma maneira
espantosa; em suas faces intumescidas respirava uma
expresso feroz de dio e vingana.
Horcio compreendeu que naquele momento qualquer
explicao era impossvel. O que tinha de melhor a fazer era
eclipsar-se. No fim de contas esse desenlace lhe convinha,
pois cortava todas as dificuldades da retirada.
Cortejou e saiu.
A alguns passos da casa, o leo no pde conter uma
gargalhada, que lhe estava a sufocar, e desabafou-a.
Realmente havia de que rir; duas vezes mistificado em sua
paixo, ele, o rei da moda, o conquistador sempre feliz.
Insensivelmente comeou a refletir sobre o ocorrido. Por
mais que se desse tratos  imaginao, no podia decifrar o
113
enigma. A botina que achara fora perdida por uma das duas
moas; mas no pertencia a nenhuma. Seria encomenda de
outra amiga, e talvez para alguma menina de dez anos?
De repente surgiu no esprito de Horcio uma idia to
original, como a situao em que se achava.
-- Eu vi os dois ps de Laura; mas de Amlia, s vi um; 
verdade que esse valia por trs. Mas... No resta dvida. A
natureza tem destes caprichos. A maravilha a par do
monstro, o mimo em face da deformidade!  o princpio do
contraste, que rege o mundo. Eu vi o direito, o aleijo. O
esquerdo ficou oculto como a prola e o diamante.
Compenetrado dessa idia, de que o pezinho adorado
pertencia a Amlia, a quem a natureza em compensao
aleijara o outro, Horcio admitiu a possibilidade de que sua
paixo pela moa revivesse, embora menos ardente, ou
mais positiva.
Ter aquele pezinho em suas mos, senti-lo estremecer e
palpitar de emoo, cobri-lo de beijos, acariciar a rsea ctis
difana tecida de veias azuis, brincar-lhe com as unhas
crespas, como conchinhas de ncar, cingir ao seio esse
gnomo gentil, titilante de amor e volpia!...
No podia haver para o leo maior delcia neste mundo. Ele
daria por ela todo o quinho de prazer que porventura lhe
estava reservado para o resto da existncia.
Foi engolfado nestes devaneios que Horcio apeou-se  Rua
Direita de um tlburi, que tomara no Largo do Machado.
Seguindo para a Rua do Ouvidor, a passo lento e
descuidado, o leo aspirava o ar da cidade, como o ocioso
que no sabe em que h de consumir o dia e fareja uma
aventura qualquer.
De repente avistou coisa que o ps alerta. Um carro que
subia a Rua do Ouvidor passou por ele; era o cup do Sales.
O rosto encantador de Amlia apareceu-lhe a princpio de
relance na penumbra que azulava o acolchoado de damasco,
e depois em plena luz moldurado pelo quadro do postigo.
114
Acompanhando com o olhar a carruagem, Horcio a viu
rodar por algum tempo vagarosamente por causa de
embarao no transito e parar prximo  esquina da Rua dos
Ourives. O lacaio, com a mo na aldraba, esperava
naturalmente ordem para abrir.
Horcio apressou o passo. Por duas vezes avistara a fronte
de Amlia coroada com um chapeuzinho de palha da Itlia,
assomando no postigo, a fim de percorrer a rua com o olhar.
A idia de que a moa lhe desejava falar passou pela mente
do leo, que a repeliu, sem contudo consider-la impossvel.
Em todo caso ele acreditou que mais ou menos tinha parte
naquela parada do carro, e no se enganava.
-- Para que mandaste parar? perguntou D. Leonor.
-- Quero comprar luvas no Masset, respondeu a filha.
-- Ficou atrs.
-- Podemos ir a p.
Quando o leo chegou a dez braas do carro, a portinhola
abriu-se, e Amlia, em companhia de sua me, saltou na
calada. A moa tinha um roupo cor de caf, de extrema
simplicidade, porm muito elegante; as luvas eram da
mesma cor de cinza das fitas do chapu de palha.
As duas senhoras dirigiram-se para a casa do Masset.
Horcio procurou cortej-las na passagem, mas elas no lhe
deram ocasio. Contudo o leo reparou que a moa
disfaradamente voltou o rosto para olh-lo.
Enquanto as senhoras compravam luvas, Horcio as
esperava em frente da casa do Valais, a alguns passos do
carro. Pouco tardaram. Amlia vinha s na frente.
Felizmente o transito pela calada diminuiu naquele
instante, de modo que o conquistador pde ver a gosto a
moa aproximar-se dele. Levados por impulso irresistvel os
olhares do mancebo abaixavam-se para os volantes do
vestido, e rastejaram no cho que a moa pisava.
115
Amlia percebeu a insistncia do olhar, e um ligeiro sorriso
fugiu-lhe dos lbios. Imaginando que na calada havia lama,
colheu com ambas as mos a frente da saia, e com tanto
estouvamento que descobriu os ps at o colo da perna.
Horcio ficou fulminado.
Vira pousados na calada dois pezinhos mimosos que
palpitavam dentro de botinas de merin cor de cinza.
Pareciam um par de rolinhas, arrulhando na praia e
beijando-se com o biquinho rosado. Durante o rpido
instante, que seus olhos puderam admirar esses primores
de graa e gentileza, no escaparam a Horcio as
ondulaes voluptuosas e os contornos suaves dos dois
silfos. Nunca ele observara no talhe elegante da mais
formosa mulher requebros to aveludados, como tinha
aquele dorso arqueado e aquela palmilha sutil.
Tamanho foi o pasmo de Horcio, que sr deu por si quando
a moa, passando por ele, entrou na carruagem. Voltou-se
ento precipitadamente, sem conscincia do que ia fazer;
mas a parelha j tinha partido a trote largo.
Momentos depois o leo descia a Rua do Ouvidor
completamente absorto. Seu lbio distrado ia debulhando,
sem o sentir, alguns trechos dos lindos versos do
conselheiro Jos Bonifcio:
"Padres, no me negueis, se estais em calma, "Um corao
no p, na perna um'alma!"
XVIII
Laura e Amlia eram primas e amigas de infncia; havia
entre elas apenas a diferena de dezoito meses.
Desde a idade de trs ou quatro anos, isto , desde que
deixou as faixas, Laura usou sempre de roupas compridas.
Isso causava reparo a todos que viam a menina trajada
como uma senhora. Muitos achavam extravagante e ridculo
o capricho e censuravam a me.
Esta ouvia as censuras de suas amigas, assim como os
motejos estranhos, e calava-se; mas no alterava o
116
vesturio da menina. A ternura e piedade materna lhe
davam a pacincia necessria para arrostar com as
zombarias do mundo.
Laura tinha um aleijo; nascera com os ps disformes. Para
mais agravar o desgosto dos pais, essa monstruosidade
vinha ligada a uma beleza anglica. A senhora avaliou do
infortnio de sua filha, e preparou-se para todos os
sacrifcios. Consultas foram dirigidas aos melhores mdicos
da Europa; chegou a empreender uma viagem para tentar
os recursos da cincia; foram todos ineficazes.
Desenganada afinal, dedicou-se a esconder a desgraa de
sua filha, a fim de que ela no fosse obrigada a
envergonhar-se na sociedade. Durante muito tempo Laura
no teve outra criada, alm de sua me.  custa de esforos
constantes, de uma vigilncia incessante de cada dia e cada
hora, conseguiu a senhora manter esse segredo de famlia,
do qual dependia a felicidade da filha.
Atingindo a idade de oito anos, a menina com o instinto da
mulher, compreendera seu infortnio; e desde ento
descansou a me daquele cuidado incessante. Ficando moa
casou-se, e seu marido que a amava estremecidamente,
morreu ignorando o segredo.
Com bastante mgoa sua, Amlia surpreendeu o segredo da
prima e amiga.
A filha de Sales tinha dois pezinhos de fada, breves,
arqueados, com uns dedos que pareciam botes de rosa. O
desgosto e vexame que isso causava  moa, ningum o
imagina. Ela supunha-se aleijada; apesar de seus 18 anos,
seus ps eram de menina.
Assim o mesmo cuidado com que Laura escondia a sua
monstruosidade, punha ela em ocultar essa graa e prenda
da natureza. Naquele tempo no se tinha introduzido ainda
a moda dos vestidos curtos; bem ao contrrio, o tom era
arrastar desdenhosamente pelo cho a longa fmbria do
vestido.
Um dia que Laura passou em sua casa, Amlia teve
curiosidade de comparar seu pezinho com o da prima, para
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saber se a diferena era excessiva. Enquanto a outra
endireitava o penteado no toucador, realizou ela seu
intento.
Avalie-se da vergonha e aflio de Laura; o desespero de
Amlia foi maior ainda. No perdoava a si mesma o ter
causado to grande pesar  prima, a quem ela queria muito
bem. Para mitigar essa dor profunda, Laura esqueceu a sua.
Desde ento as duas amigas se consolavam mutuamente.
Laura admirava o pezinho de Amlia; esta, ou sinceramente,
ou para atenuar a mgoa da prima, chegava a invejar o seu
infortnio.
Aborrecida de no encontrar nas lojas calado que lhe
servisse, Amlia tinha descoberto por acaso o sapateiro da
Rua Sete de Setembro. Conhecendo a habilidade do Matos,
pensou que ele pudesse disfarar o defeito da prima. No se
enganou; o artista realizara a obra-prima de pacincia, que
Leopoldo tivera ocasio de apreciar por um acaso.
Amlia fez a Laura o sacrifcio de expor-se para no
comprometer o segredo da amiga. O sapateiro no a
conhecia, nunca a tinha visto, recebia as encomendas por
intermdio de um criado que pagava  vista. Fcil foi
portanto iludi-lo.
Na ocasio em que as duas primas esperavam de carro na
Rua da Quitanda, o lacaio vinha da casa do sapateiro, o qual
vexado com a pressa, esquecera as recomendaes de
fechar bem o embrulho.
As pretenses de Horcio vieram pouco depois arrefecer a
amizade das duas primas: j no se viam to amide; mas
no obstante Amlia continuou a prestar a Laura o mesmo
servio, e essa, coagida pela necessidade, foi obrigada a
aceit-lo.
Iam as coisas por esse teor, quando teve lugar o baile do
Azevedo.
Depois da primeira quadrilha, Amlia foi ao toucador. Era
este em uma sala que dava para o jardim. Aproximando-se
de uma janela entreaberta, obscurecida pela sombra do
118
cortinado da cama, viu a moa os dois amigos no momento
em que eles vieram sentar-se no banco, justamente
colocado por baixo da janela.
A casa era abarracada. Amlia encostada no portal da
janela, descobria os dois cavalheiros por entre a folhagem, e
ouvia distintamente suas palavras.
A, imvel, mas agitada por comoes diversas, escutou ela
a histria do p e a histria do sorriso. J os dois amigos se
tinham afastado, e a moa permanecia no mesmo lugar
como esttica.
A narrao de Horcio, e as observaes que fizera Leopoldo
a esse respeito, revelaram  moa uma coisa que j
anteriormente se havia apresentado, embora indistinta,
vaga e confusa a seu esprito.
O que Horcio amava nela, no era mais do que uma forma,
um capricho, um sonho de sua imaginao enferma. Ela
compreendeu essa aberrao dos sentidos em um homem
gasto para o amor e saciado de prazeres. A mulher era para
o leo uma coisa comum e vulgar, incapaz de produzir-lhe
emoes fortes. Tinha-as admirado de todos os tipos e de
todos os caracteres. Seu corao exausto precisava de
alguma coisa nova, original e extravagante.
Amlia compreendeu isto, no por uma anlise, que seu
esprito casto no poderia fazer, mas por uma intuio
d,alma.
Quando de novo encontrou Horcio no baile, suas maneiras
no podiam que se no ressentissem do estado de seu
corao. Tratou o leo secamente; mas logo tornou-se
amvel; ocorreu-lhe uma idia; quis pr  prova o amor do
noivo, antes de confiar-lhe seu destino.
Foi na sua alcova, durante a insnia, que ela recordou-se da
histria de Leopoldo, e comparou seu amor ao de Horcio.
Repassando na mente as palavras comovidas do primeiro,
pensando naquele afeto to desprendido das misrias
humanas, to d,alma, Amlia sentia-se como purificada dos
desejos do sedutor.
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Esse amor puro e imaterial era um batismo para seu
corao virgem.
A moa conheceu que o engano de Leopoldo provinha de
uma iluso da vista, no momento de entrar no carro com
Laura; iluso confirmada pela presena do lacaio na loja do
sapateiro. Chegou a estimar esse incidente que ps em
relevo a alma nobre e generosa do mancebo.
Acudiu-lhe  lembrana sua primeira conversa em casa de
D. Clementina. As palavras que ento lhe pareceram
ininteligveis, tinham agora um sentido. Compreendia toda a
sublimidade do corao que dizia com uma profunda
convico:
-- Sinto-me capaz de amar o horrvel, sinto-me capaz de
nutrir uma dessas paixes mrtires, de amar o anjo ainda
mesmo encarnado no aleijo.
-- Esse me ama realmente, a mim, e no  sua fantasia!
murmurou a moa com tristeza.
No dia seguinte, depois de uma noite de insnia, preparouse
para receber Horcio e submet-lo  prova. O Matos
conservava um par das antigas botinas de Laura, o qual lhe
fora para modelo. Mandou Amlia busc-lo; e encheu-o de
algodo para acomodar nessa enormidade o seu mimoso
pezinho.
O bordado do bastidor foi expressamente inventado.
Procurando uma letra para indicar a pessoa a quem
destinava o pretendido presente, insensivelmente traou um
L. Era a inicial de Laura, que lhe acudira  mente; ou era a
lembrana de Leopoldo, que lhe esvoaava ainda na
imaginao? Foi uma e outra coisa. Serviu-se do pretexto da
amiga para evocar o nome do homem, que to
profundamente a amava.
Depois da cena que teve lugar na tarde do jantar, Amlia
arrependeu-se. Receava ter-se excedido; bastava-lhe matar
a iluso do mancebo, no devia ter excitado o horror. Mas o
afeto de Leopoldo a tornara exigente; ela queria ser amada
por Horcio da mesma forma, com aquela sublime
abnegao.
120
Durante alguns dias, alimentou a esperana de conservar a
afeio do noivo, e regozijava-se com a idia da surpresa
que lhe guardava.
A ausncia do leo a foi desenganando de dia em dia.
Travou-se ento uma luta em seu esprito. Devia esquecer o
homem que no amava nela seno uma fantasia?
O tom de Horcio na ltima noite a irritou. Seu amor-prprio
indignou-se com o menoscabo do moo, e sbita revelao
de sua alma lhe advertiu que esse casamento causaria sua
desgraa.
No dia seguinte ao do rompimento, Amlia foi, como havia
dito na vspera,  casa de D. Clementina. Era a primeira vez
que tornava a ver Leopoldo depois do baile.
Estiveram juntos alguns momentos. Como de costume
Leopoldo falou, e a moa embebeu-se daquelas palavras
apaixonadas como de um eflvio suave.
Em um momento de pausa, disse Amlia:
-- O senhor passou por nossa casa na tera-feira?
--  verdade. Por que pergunta?
-- Eu estava no jardim. Vi-o quando passava; cuidei que ia
entrar.
-- No me animava.
-- Por qu?... Mame j lhe ofereceu nossa casa.
-- Tenho receio de ser importuno.
-- Pouco samos agora;  exceo das noites que passamos
aqui, estamos sempre ss; mame lendo e eu tocando ou
fazendo algum trabalho de l.
-- E ningum mais? perguntou Leopoldo, fitando na moa
um olhar interrogador.
-- Ningum! respondeu Amlia em tom grave.
121
Leopoldo ficou suspenso, buscando compreender o
pensamento da moa. Era mgoa do bem perdido, ou temor
do mal frustrado, que assim lhe anuviara a fisionomia?
Mas o sorriso prazenteiro iluminou o semblante da moa:
-- Sabe? Naquela noite do baile, me contaram uma histria
muito interessante, disse ela.
-- No se pode saber?
-- O senhor pode. Foi a histria de um sorriso, disse Amlia
sublinhando a palavra com um gesto faceiro.
-- Quem lhe contou? Foi ele?
-- Foi o senhor.
-- Eu?
-- O senhor mesmo. J no se lembra?
-- Quer gracejar?
-- O senhor estava no jardim conversando com seu amigo, e
eu na janela do toucador.
Leopoldo adivinhou.
-- Ento ouviu tudo?
-- Tudo!...
-- E... perdoou-me?
-- No; no tinha de qu, mas...
E seus belos olhos lmpidos repousaram no semblante do
moo.
-- Mas compreendi!
Nesse momento D. Leonor chamou Amlia.
XIX
122
Quando recobrou-se da surpresa em que tinha ficado,
Horcio no achou em si mais do que o desejo veemente e
irresistvel de possuir o dolo por tanto tempo sonhado.
-- Sero meus! murmurou consigo. Sero meus a todo
preo. Se for necessrio um escndalo, no hesitarei. Mas
Amlia no deve ter-se esquecido de mim j to depressa;
ela me tinha afeio. Vou pedir-lhe perdo de meu engano.
Sujeitar-me-ei a todas as condies. Que sacrifcios so
bastantes para pagar a felicidade de beijar aqueles dois
mimos da natureza!
Instintivamente Horcio seguiu na direo da casa do Sales,
com inteno de restabelecer as relaes interrompidas.
No sabia ele de que modo se houvesse em tal empenho;
fiava da inspirao do momento.
J no estava o negociante no escritrio; nesse dia se
retirara mais cedo.
Malograda sua esperana, o leo foi caminhando pela Rua
Direita sem direo, como quem no sabe o que fazer. O
instinto que no deserto guia o rei dos animais  sebe
odorfera onde retouam as gazelas, o conduzia
naturalmente para a Rua do Ouvidor.
Tinha chegado  esquina, quando passou defronte um moo,
que seguiu pela calada Carceler. Horcio acompanhou-o
com a vista, querendo nele reconhecer seu amigo Leopoldo
que havia cerca de um ms no vira.
Se com efeito o moo era Leopoldo, tinha ele sofrido grande
transformao. Em vez do rapaz descuidado no seu traje,
brusco em suas maneiras, sempre de cabelos arrepiados e
barba revolta, aparecia um cavalheiro de boa presena, com
a sbria elegncia que to bem assenta nos homens
sisudos. Essa espcie de elegncia  apenas um ligeiro
perfume, e no uma incrustao como a que usam os moos
 moda.
Com seu fino tato e longa experincia, Horcio,
reconhecendo o amigo, adivinhou o segredo daquela sbita
metamorfose. Ele sabia que s h um condo capaz de
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produzir tais encantos:  o olhar da mulher amada e
amante.
Ame algum e no saiba se  retribudo. Toda sua existncia
se projeta nesse impulso d'alma, que se arroja para outro
ser e anseia por nele infundir-se. Vive-se fora de si mesmo,
alheio a seu prprio eu; como o peregrino perdido longe da
ptria, o homem exilado de sua pessoa erra no espao, em
demanda de um abrigo.
Desde, porm, que o homem tem certeza de ser amado, em
vez de expandir-se, recolhe-se e concentra-se para saturarse
de felicidade. J no se alheia e esquece de si; ao
contrrio, sente-se elevado acima do que era; respeita em
sua pessoa o homem amado.
Nessa ocasio  natural a cada um observar-se
constantemente e julgar de si com extrema severidade.
Surgem aspiraes estranhas; o fraco lembra-se de ser um
heri; o filsofo inveja a beleza do casquilho; o esprito
positivo habituado a voar terra a terra bate o coto das asas
para remontar-se ao ideal da poesia.
No  s no homem que se opera essa metamorfose: mas
em toda a natureza. Quando se arreiam os pssaros de sua
mais bela plumagem, quando gorjeiam as melodias mais
brilhantes, se no  na quadra dos amores?
Vendo Leopoldo parado na calada Carceler, Horcio dirigiuse
com disfarce para aquela parte, com inteno de travar
conversa e esclarecer de todo em todo o mistrio. Foi
trabalho perdido; o moo acabava de saltar em um tlburi,
que rodava j pela Praa de Pedro II.
Desapontado, voltou Horcio sobre os passos.
-- Amlia o ama!... Ou pelo menos ele o acredita!
Sorriu-se o leo.
-- Que fenmeno curioso produz o despeito na mulher! 
uma semelhana da luz reflexa. Irritado pela decepo,
humilhado em sua vaidade, o amor da mulher desdenhada
refrange como o raio do sol repelido por corpo brilhante e
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vai impregnar-se em outro homem. Ela cuida sentir por esse
plasto uma paixo ardente, que nada mais  do que o
mpeto de seu despeito. Seria capaz de conceder a esse
comparsa o que recusaria  afeio mais terna e extremosa.
O assomo do cime, supe ela ser veemncia da afeio, e
confunde com os extremos de amor o delrio da vingana.
Amlia est passando por esta crise naturalmente. Leopoldo
foi o plasto; ela o ama com todo o furor do dio que me
tem.
Outro sorriso frisou o lbio do leo.
-- Ela me odeia! Ora!... O dio o que  seno a
efervescncia do amor? O afeto suave e terno  como o
moscatel de Setbal ou o vinho de Constana. O amor fero e
irado  como o champanhe que ferve e espuma.
Chegando  casa, Horcio escreveu a Amlia uma carta, que
apenas continha estas palavras:
"Deve estar satisfeita, pois me tem de novo a seus ps, e
desta vez humilde e suplicante. A melhor coroa do triunfo 
o perdo."
Saindo o leo a espairecer, dirigiu os passos para a casa do
Sales; esperava encontrar algum criado que se incumbisse
de entregar a carta.
Quem sabe? Talvez nessa mesma ocasio se decidisse de
sua sorte. A moa lhe permitiria falar-lhe.
Era noite fechada; o cu, carregado de nuvens, anunciava
prxima borrasca. A frente da casa do negociante estava s
escuras; contudo quem observasse bem, perceberia a coarse
pelos interstcios das janelas um tnue reflexo de luz
interior. No porto da chcara a meio cerrado, ningum
aparecia.
O leo penetrou no jardim. Nesse momento um carro parou
 porta da casa: trs pessoas saram dele. Em um Horcio
viu, estremecendo, roupas de sacerdote. S ento refletiu o
moo no aspecto soturno do edifcio. Inquieto,
sobressaltado, adiantou-se pelo jardim na esperana de
encontrar pessoa a quem interrogasse.
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As janelas laterais estavam esclarecidas; e pelo jogo das
sombras no quadro iluminado, conheceu o moo que reinava
no interior alguma agitao.
Que fazer? Apresentar-se na casa, depois do que passara, e
antes de qualquer explicao. no era razovel.
A dois passos ficava uma frondosa mangueira, em cujos
galhos tinham fabricado uma espcie de belveder ou
caramancho. Conduzia ao alto uma escadinha de caracol
cingindo o tronco da rvore.
Por acaso avistou o leo a mangueira, e subindo sem
hesitar, achou-se justamente fronteiro s janelas
iluminadas. Em princpio a claridade sbita ofuscou-lhe a
vista, e no pde ele distinguir o que se passava no interior.
Mas afinal o deslumbramento dos olhos cedeu ao
deslumbramento d'alma.
Ele via, e duvidava.
Um altar erguido, crios acesos, o sacerdote oficiando,
Amlia e Leopoldo de joelhos, ao lado Sales, D. Leonor, e
dois amigos que serviam de testemunhas: eis o quadro que
se ofereceu aos olhos de Horcio. Tinha visto na comdia da
vida muitos lances dramticos, mas nenhum to imprevisto
e curioso.
A surpresa do leo provinha de um engano seu. Ele
acreditava que Amlia o tinha amado, quando a moa no
sentira por ele mais do que o desvanecimento de ver cativo
de seus encantos o rei da moda, o feliz conquistador dos
sales.
Quem Amlia amou desde o princpio, foi Leopoldo. A
vaidade, o galanteio que se nutre de brilhantes futilidades, a
seduziam por momentos, e rendiam ao capricho de Horcio.
Mas passado esse enlevo, sua alma sentia a atrao
irresistvel que a impelia para o seu plo.
Disso que durante dois meses passava na vida ntima da
moa, ela prpria no se apercebia; foi depois da cena do
baile, que ela entrou em si, e compreendeu as sublevaes
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recnditas de sua alma, e o drama que a se agitava desde
muito.
Leopoldo comeara a freqentar a casa de Sales poucos dias
depois da partida de D. Clementina. As duas almas, por
tanto tempo separadas, s esperavam o momento de se
unirem ou antes de se entranharem uma na outra. s
tardes, no jardim, entre cortinas de flores, elas celebravam
esse mstico himeneu do amor, nico eterno e indissolvel,
porque se faz no seio do Criador.
Pelo voto de todos se apressou o dia do casamento, que os
noivos exigiram se fizesse inteiramente  capucha, e sem
prvia participao. A razo desse empenho, s Amlia a
sabia e nunca a disse. Eram escrpulo de seu pudor: depois
do que tinha acontecido, no queria que lhe dessem outra
vez o ttulo de noiva.
Terminada a cerimnia, e feitas as felicitaes do costume,
correram os minutos em agradvel conversao.
Eram onze horas, quando Leopoldo entrou no toucador em
que sua noiva o esperava. Sentada em uma conversadeira,
Amlia sorriu para seu marido; porm atravs das largas
dobras do roupo de cambraia, percebia-se o tremor
involuntrio que agitava seu lindo talhe.
--  meu presente! disse ela com timidez.
E apresentou ao noivo um objeto envolto em papel de seda,
atado com fita azul.
Abrindo, achou Leopoldo dois mimosos pantufos de cetim
branco, os mesmos que Amlia comeara a bordar no dia
seguinte ao baile.
O moo enleado, no compreendia. Insensivelmente seu
olhar desceu  fmbria do roupo. Sobre a almofada de
veludo e entre os folhos da cambraia, apareciam as unhas
rosadas de dois pezinhos divinos.
Uma onda de rubor derramou-se pelo semblante da moa,
cujos lbios balbuciaram uma palavra.
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-- Calce!
Leopoldo ajoelhou aos ps da noiva.
O temporal, desabando nesse momento, bateu com
violncia nos vidros da janela, que fechou-se.
Horcio desceu do seu observatrio, e escalando a grade de
ferro do jardim, ganhou a casa, onde chegou todo alagado.
Enquanto filosoficamente esperava que seu criado lhe
preparasse uma xcara de caf, abriu um livro, que acertou
ser La Fontaine.
Leu ao acaso: era a fbula do leo amoroso.
--  verdade! murmurou soltando uma fumaa de charuto.
O leo deixou que lhe cerceassem as garras; foi esmagado
pela pata da gazela.
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